sábado, 10 de julho de 2010

Os iNCOMUNICÁVEIS



No passado, os sinais de que a água estava subindo foram ignorados; primeiro passamos a esquecer coisas banais como os números de telefone de nossos amigos e dos não tão conhecidos. Logo a enxurrada tomou conta de nossas agendas. Então, quando tudo o que se referia às nossas vidas passou a ser registrado em telefones celulares, as águas do rio Lete iniciaram a conquista de nossas entranhas.


Entretanto, antes que a possibilidade de um futuro fosse tragada, líderes visionários instituíram a ordem dos iNCOMUNICÁVEIS. Se a maioria das pessoas só era capaz de decorar que tudo o que precisa lembrar estava registrado no celular, os iNCOMUNICÁVEIS desconheciam a existência de tais máquinas. Foram separados de suas famílias na tenra infância para que assim fosse. A eles cabia a tarefa vital de alimentar as máquinas que mantinham a memória coletiva em funcionamento.


Assim, qualquer necessidade humana era atendida a partir dos ensinamentos sagrados contidos nos downloads executados pelos celulares. Para os que caíam vítimas do impulso primitivo do sexo “177 maneiras de enlouquecer uma mulher/homen na cama”. “Como fazer amigos e influenciar pessoas” para os solitários. “A dieta do doutor Atkins” para os preocupados com silueta. E até a “Origem das espécies” como consolo teológico. A vigilância eterna dos iNCOMUNICÁVEIS impulsionava o coração do mundo.


Mas se a memória do homem comum fora afogada, sua estupidez salvou-se subindo em algum ponto elevado de sua mente. As divergências políticas continuavam. As guerras e o terrorismo idem. A diferença é que as facções em luta já não lembravam porque brigavam; mas sabiam que a luta tinha de continuar.


Cientes de que a espécie humana era como um infante sob sua carga e que o fim de sua ordem seria o maior prêmio para as facções terroristas, os iNCOMUNICÁVEIS isolaram-se num mosteiro situado no cume da montanha mais alta da Terra.


Décadas depois, um jovem iNCOMUNICÁVEL divisou um corpo caído enquanto coletava ervas para o jantar. Logo o corpo revelou-se uma garota; diferente de todas que o neófito já vira em sua ordem. Tocado pelo estado da pobre criatura decidiu levá-la ao mosteiro. Extenuada pelo esforço de subir até a montanha mais alta do mundo a garota disse que sua hora havia chegado mas que o rapaz precisava completar-lhe a missão: levar uma caixa para o líder dos iNCOMUNICÁVEIS. Após fazê-lo prometer que cumpriria seu desejo a garota deixou sua essência esvair-se num último suspiro. Cumprindo seu destino o garoto entregou a caixa a seu líder e todos da ordem conheceram o plano de 600 minutos.

Inferno


No início, quando foi combinado que os pecadores incorrigíveis deveriam ter seu lugar de danação eterna, o inferno parecia a solução perfeita. Almas, estivessem elas presas à carne ou não, tremiam ao imaginarem as torturas eternas as quais seriam submetidas se saíssem dos trilhos. E as coisas funcionaram assim por éons. Aos poucos, porém, os lamentos e gritos das almas condenadas foram perdendo força. Por paradoxal que possa parecer, a noção de que um mesmo castigo só era interrompido tempo suficiente para que se delimitasse a fronteira entre o anterior e o próximo começou a anestesiar as almas. Como medida de emergência foi aberta uma exceção e os condenados foram transferidos entre os diferentes círculos do inferno; assim receberiam novos castigos. Isso deu certo, mas só por um tempo.


Claro que não é segredo que os Homens tentam compensar sua ínfima quota de vida experimentando as mais diversas situações. Mas a alma, constituída por um material indelével, deveria suportar a maçante eternidade. Quem sabe mesmo a vida humana sendo tão fugaz ela seja tempo demais para a alma passar encarcerada num corpo mortal de barro? O certo é que a repetição dos mesmos castigos para todo o sempre tornou apática a alma daqueles cujos pecados eram pesados demais para serem perdoados pelo ato do arrependimento. E assim, o inferno foi vencido pelo tédio. Contrariado, o ex-anjo da luz decidiu consultar o único capaz de aconselhá-lo; aquele que consentiu que tudo fosse criado, o inferno inclusive. Com uma polidez que só o pai celestial teria para com seus desafetos, o senhor do inferno foi informado que deveria resolver seus próprios problemas. O paraíso também estava em crise; o rebanho do senhor não estava imune à mesmice. O tédio que havia em cima, havia embaixo.


O acusador não sabia o que fazer; se as almas do inferno continuassem ganhando em insensibilidade logo uma rebelião se instauraria. A solução óbvia para superar o tédio era a inovação: criar novos castigos. Mas o inferno era grande e tradicional demais para mudar assim, com dizem, de uma hora para outra. Seria preciso tempo e dedicação, mas como se as almas não paravam de chegar? Por não ser onisciente, onipresente e onipotente, durante a reforma, o chefe do inferno poderia no máximo cuidar das almas que já estavam sob seu comando, mas não dar atenção às recém-chegadas.


Decidido ele disse:


_ Ao diabo com as novas almas! Aqui elas não entram! A partir de agora o inferno é a Terra.

Falcon


Eles percorriam selvas lutando contra gorilas ensandecidos; resgatavam tesouros protegidos por tubarões insones de apetite insaciável. E apesar de todo o perigo, o menino sabia que enquanto estivesse com seu amigo Falcon não tinha o que temer; o boneco o protegeria.


Contudo, havia um adversário que ambos não conseguiam sobrepujar, a mãe do menino. Preocupada com as horas que o filho passava quieto com aquele boneco ela era obrigada a fingir que lhe daria umas chinelas a fim de interromper a brincadeira. O pai achava suspeito. Onde já se viu menino brincando de bonecas? Mas eles acabaram se acostumando com aquela dupla inusitada.


Numa manhã o menino permaneceu na cama e não pôde acompanhar Falcon na aventura que o boneco havia planejado. Exames depois os pais foram informados de que seu filho sofria de uma doença grave. Iniciado o tratamento os inúmeros remédios não surtiram efeito e o garoto continuou a piorar.


Desiludida, a mãe partiu com seu filho para o interior em busca de uma renomada curandeira. Depois de olhar o menino a velha bruxa perguntou à mãe se seu filho tinha algum objeto do qual gostasse muito. De imediato a mãe contou-lhe sobre o Falcon e a velha disse o que precisa ser feito para tirar a doença do menino. Às lágrimas o filho implorou para que a mãe não seguisse as instruções. Mas não funcionou. De volta à cidade ela confeccionou um novo uniforme para o boneco a partir das roupas de seu filho. Por fim, com alguns fios do cabelo do menino ela improvisou uma barba para o Falcon.


Após o bizarro experimento o menino foi gradativamente recuperando suas forças enquanto o Falcon, escondido num armário, murchava como se tivesse sido acometido por uma perversa caquexia. Numa noite quando a vitalidade do menino estava quase recuperada, ele conseguiu sair da cama e procurar seu companheiro. Após revirar vários dos conhecidos esconderijos da mãe ele encontrou o boneco já quase sem forma. Desesperado, o garoto arrancou-lhe o uniforme e a barba.


Em resposta, a saúde do menino deteriorou-se de tal forma que ele não pôde mais ser tratado em casa e foi internado. Suspeitando do que havia acontecido a mãe procurou pelo boneco, mas ele desaparecera. Quando o garoto atingiu o primeiro estágio do coma, o médico explicou a seus pais que mais nada podia ser feito. Agora tudo dependia da vontade do paciente lutar pela própria vida.


Mais tarde enquanto o garoto dormia uma pequena mão de plástico tocou-lhe o rosto e uma voz sussurrou:


_ Ei, eu estou aqui.


E então partiram, o menino e seu Falcon, na maior de todas as aventuras.

Cogumelos sob a Luz da Lua Cheia




Dias atuais, numa potência do hemisfério norte.

_ Senhor presidente, desculpe-me incomodá-lo, mas trago informações da junta de generais.

_ O que eles disseram sobre meus planos?

_ Estão aguardando vossas ordens para entrar em guerra contra os demônios do Ocidente.

_ Excelente! Você fez um bom trabalho; não me esquecerei de sua lealdade. Se não tiver mais informes, pode ir.

_ Na verdade, senhor, o ministro Gouveia solicitou uma audiência. Mas ele não disse o assunto, só que era importante.

_ Pois bem, encontre-o e traga-o aqui.

_ Sim vossa excelência, com licença.

Em outra parte do palácio presidencial, o ministro Gouveia entra numa sala de interrogatório.

_ Salve, ministro!

_ Então capitão, o que conseguiu dele?

Em resposta, o oficial entregou um livro ao ministro.

_ Ele só tinha isso?

_ Sim. Mas nossos especialistas acreditam que esse não é um livro qualquer; aparentemente ele tem alguns séculos! Claro que eles precisariam examinar o conteúdo...

_ Mas ninguém fez isso, não é? Cabe a mim descobrir se há algo de valor aqui ou se isso é só uma peça de museu. Ah, a partir de agora, deixe o espião em paz. Que fiquei ai no chão, mas não bata mais nele; mortos não falam.


Dizendo isso, Gouveia partiu em direção a seu gabinete. Lá, com as mãos trêmulas, ele começou a folhear o livro.

“A cada dia que passa, temo que a fera apague por completo o homem que já fui. Caso um dia isso ocorra, essas páginas me lembrarão que já fui conhecido por Aemilius Lepidus Tácito.”

“Minha vida ordinária mudou radicalmente cerca de 60 anos antes da era cristã. Eu fora escravizado e forçado a lutar sob o comando de Júlio César em sua campanha na Gália. Tivesse tido sorte, teria morrido em batalha, mas fui ser capturado e os druidas me reservaram um terrível fim: o sacrifício. Era noite de lua cheia e fui amarrado a um gigantesco carvalho. Contudo, não foi uma divindade que apareceu instantes antes de meu peito ser aberto, e sim dezenas de demônios chamados de vérsipélios pelos romanos bastardos. Liderados pelos uivos infernais do maior entre eles, uma criatura que se assemelhava a um lobo mas cujo corpo branco era o de um homem, os demais destroçaram todos os gauleses com uma rapidez e ferocidade de fazer inveja a melhor das legiões romanas. Quando só eu ainda respirava naquela maldita floresta, a grande besta branca veio até mim. Contrariando minhas expectativas de ser indignamente estripado como um porco amarrado, fui mordido no ombro e, após ser arremessado à distância, mergulhei na inconsciência.”

“Quando fui encontrado estava entre o reino dos vivos e o dos mortos e apesar disso, um médico piedoso, convenceu outros legionários a me carregarem. Semanas depois quando estávamos na metade do caminho entre Roma e a Gália, uma assombrosa mudança ocorreu numa noite de lua cheia: minha razão desapareceu na mesma proporção que meu corpo aumentou em tamanho e fúria. No dia seguinte, os pedaços de corpos atestavam meus crimes. Infelizmente, o único romano pelo qual já tivera apreço, o médico, estava entre as vítimas.”

“Embora depois da primeira transformação, inúmeras outras tenham ocorrido ao longo dos anos, as lembranças desses momentos estão envoltas em névoas. O mesmo não ocorre quanto às sensações que se apossavam de mim. Transformado, meus sentidos ficavam tão ampliados que podia sentir as diferença de sabor entre a carne mais branca e a mais vermelha dos músculos de minhas vítimas. E o que dizer do gosto contrastante entre o sangue arterial, rico em nutrientes e o sangue venoso, cheio de excretas?”

“Claro que o maior tesouro obtido com a passagem do tempo foi as descobertas que fiz. A primeira e, também mais amarga delas, foi perceber que teria de passar toda existência fugindo. Afinal, se nas noites de lua cheia eu era praticamente indestrutível, nos demais dias do mês era presa fácil daqueles que previamente tinha caçado. A falta de contato humano, decorrente disso, foi salutar à besta que habitava em mim; sua presença passou a dominavar-me de modo crescente mesmo quando não havia lua cheia.”

“A segunda constatação foi a de que gozaria da imortalidade desde que me mantivesse a salvo de meus perseguidores, afinal, qualquer sinal de envelhecimento cessou em meu corpo; mas manter-me ileso não era uma tarefa fácil. Certa ocasião, quando o Império Romano do Oriente acabara de fragmentar-se levando consigo a Idade Média, fui salvo da destruição por uma jovem das estepes russas que me ocultou de seus conterâneos furiosos. O surgimento de Madalena estancou a dominação que a fera vinha exercendo sobre minha personalidade. Assim, apaixonei por uma garota milhares de anos mais nova que eu. Depois de contar-lhe meu segredo, nos mudamos mais para o norte e, em nosso novo lar, construi uma prisão para conter-me quando necessário; logo vieram os filhos.”

“O sonho durou quinze anos, até que o lobo branco que me criou atravessou o mundo e veio me assombrar numa noite de lua cheia. Preso pelos grilhões, achei que veria impotente, minha família ser massacrada. Mas enquanto o resto da alcatéia segurava minha mulher e filhos, meu criador veio até mim e me libertou. Desesperado, atraquei-me com ele e, embora liberasse toda minha fúria, meu adversário parecia estar se divertindo com algo. Como o monstro descobriu sobre o eclipse lunar total, jamais saberei, mas assim que ele começou, eu e os demais versipélios voltamos ao nosso estado original, enquanto ele permanecia o mesmo. Aparentemente, o monstro original não se dobrava nem à lua cheia. Posso jurar que, segundos antes dele levar o último resquício de minha humanidade com a vida de meus familiares, vi um sorriso naquela face animalesca. Depois, ele simplesmente partiu.”

“Após o...”

_ Senhor ministro, com licença. Bati à porta, mas o senhor não respondeu. O presidente concordou em recebê-lo.

_ Pedro? Está bem, vamos.

Minutos depois, ambos estavam no gabinete presidencial.

_ Entrem, por favor. Então, Gouveia, o que tinha a me dizer que não podia esperar?

_ Peço perdão por tê-lo alarmado, mas o livro que tenho em mãos não tem nenhum segredo militar importante, como imaginei. Na verdade, ele não passa de uma coleção de sandices; delírios de algum lunático que acreditava ser um lobisomem perseguido por outros lobisomens.

_ E como termina a história?

_ Bem, eu não terminei...

_ Fiquei curioso, por favor, leia o restante para nós, ainda temos tempo.

_ Deixe-me ver...aqui. “Após o eclipse, minhas transformações cessaram, mas a fúria e a loucura passaram a me dominar em tempo integral. Desde então, voltei a viver entre os homens buscando a única forma de saciar meu desejo: destruir por completo todas as odiosas criaturas da face da Terra”. Eu não disse, senhor? Que tudo não passava de loucura?

_ Veja o lado bom disso, ministro. Podemos usar a história para convencer o povo de que o país do ocidente é realmente dominado por demônios. Ninguém se negaria a lutar...

_ Mas isso é um absurdo...

No instante seguinte, as mãos nuas do presidente arrancaram a cabeça do ministro com tal velocidade que o corpo deste continuou gesticando por alguns instantes como se ainda estivesse conversando.

_ Ah, às vezes eu me esqueço da força que tenho! Viu, Pedro? Diferente de você, o Gouveia nunca teve fé em mim. Agora, tire esse sangue do rosto e aprecie o lançamento de algumas de nossas ogivas, mas só as que forem suficientes para provocar o revide inimigo.

_ Então, o senhor?

_ Sim, o livro é meu. E graças a pessoas como você, em breve o mundo estará livre!

_ Dos lobisomens?

_ Não meu caro, não só. Há tempos percebi que não sou parte nem da alcatéia nem da humanidade. Dando chance de revide, há mais garantias de que as bombas eliminem ambos. Não há mais lugar nesse mundo para nada que não seja a evolução, isto é, eu. Não se preocupe, você e algumas centenas de servos estão a salvo aqui. Garantirei que vivam e procriem para me servir. Afinal, é preciso que exista ordem pois como dizia o bom filósofo inglês “o homem é o lobo do homem”.

A Mudança - conto baseado no conto "O gato preto" de Poe



Há alguns meses, todos acreditavam conhecer meu futuro imediato: a morte. Tudo por causa daquele maldito gato. Mas quem é capaz de adivinhar o que nos aguarda na próxima esquina? Por certo o demônio negro não, caso contrário, teria acabado comigo enquanto podia.


Após constatarem meu crime, fui jogado numa cela imunda e úmida sem nenhum tratamento médico; as autoridades não se apiedaram de um homicida que emparedou a própria esposa e foi espancado quase até a morte por ter resistido à prisão.


Para mal estar geral, não morri devido aos ferimentos e pior, assim que as ataduras foram retiradas de meu rosto perceberam uma desagradável sequela. Eu preferi chamá-la de “mudança”. Não resta dúvida que esta foi mais uma tentativa de enlouquecer-me daquele gato e é bem provável que isso tivesse ocorrido caso o fato se desse antes da morte de minha pobre esposa. Entretanto, foi justamente a perda do medo em relação ao animal que me levou, por acidente, a matá-la. Acontece que os golpes recebidos durante minha captura danificaram de modo irreversível meu olho esquerdo. A órbita que até então abrigava um órgão saudável, passou a hospedar uma massa disforme cujo último resquício da Íris, um traço vertical, conferia-lhe a aparência de um olho de gato submetido à luz forte.


Naquele momento a deformidade serviu para alimentar rumores de que eu matara minha esposa devido a um sinistro pacto com o diabo. Ainda ignorando o que o novo olho representava e tendo como certa minha condenação à morte, decidi escrever o relato dos acontecimentos que me levaram à prisão e o intitulei “O gato preto”.


Como eu não lhes facilitei o trabalho, dias depois uma junta de juízes me convocou para comunicar-me sua decisão. Os magistrados concluíram que a crueldade de meu crime e a insanidade registrada em “O gato preto” eram a prova de que o álcool consumira meu juízo. O remédio para tal condição era ser pendurado pelo pescoço até a morte. Ouvi a sentença com indiferença e quando o mais velho dos juízes perguntou-me se tinha algo a dizer eu respondi: “Gostaria de dizer que depois de amanhã ao meio dia, o senhor terá a honra de ser recebido no inferno antes de mim”. Nem mesmo eu fui capaz de entender o porquê daquelas palavras, mas dois dias depois na hora prevista, o velho magistrado teve um infarto fulminante. O episódio serviu para coroar os boatos de que eu gozava da proteção do diabo e acabou tendo um efeito ainda mais surpreendente: talvez por temor às próprias vidas, os demais juízes comutaram minha pena numa estadia perpétua num manicômio da região.


Se por um lado, minhas feridas continuavam a cicatrizar, o delirium tremens que não me abandonara por um único segundo desde minha prisão, tornara-se insuportável quando cheguei no hospício. Era-me impossível dormir; passava as horas entre alucinações sobre bebidas e momentos de pânico nos quais via o gato preto do tamanho de um boi dentro de minha cela. Apesar de meus gritos, minha fama sobrenatural mantinha todos longe; à exceção do enfermeiro responsável pelo turno da noite. Este passou a compensar o frio das madrugadas com a satisfação obtida em ver minha reação a seu hábito de ingerir álcool em frente a minha cela.


Numa noite chuvosa na qual a falta de genebra causava uma convulsão tão forte que por um milagre meus dentes não se partiram, comecei a gritar um nome: Berenice. Pela segunda vez, eu pronunciava palavras que nada significavam para mim, mas o enfermeiro imediatamente veio até as grades de minha cela ameaçando-me para que repetisse o nome. Após obedecê-lo, ele desapareceu e ao retornar na noite seguinte, passou a me tratar com uma cortesia inimaginável: recebi doses de rum, genebra e até mesmo um cálice de amontillado.


A razão para o novo comportamento do enfermeiro logo ficou clara; o nome que eu proferira era o de uma égua que veio a ganhar um páreo na noite anterior. Seguindo meu palpite, o ele obtivera uma generosa quantia em dinheiro.


Nesse dia percebi que por mais insólito que isso fosse, meu novo olho me permitia prever o futuro! Apostador contumaz, o enfermeiro passou a exigir até três novas “previsões” todos os dias. Infelizmente, eu não tinha controle sobre quais palavras iria proferir ou acontecimentos que iria prever, o que me impossibilitava de atender a seu pedido com a regularidade necessária.


Assim, as semanas se seguiam entre madrugadas de marajá, nos quais bebida e outros prazeres abundavam e outras de espancamento e ameaça. Numa dessas últimas, eu gritei enquanto eu recebia uma miríade de pontapés: “hoje nas cartas, aceite a aposta do anel.” De imediato os maus tratos foram encerrados e após dar-me a merecida cota de bebida lá se foi o enfermeiro em busca de seu prêmio.


Pouco antes do amanhecer ele voltou e apresentava uma mancha de sangue abaixo da axila direita; a área coberta pelo líquido viscoso aumentava lentamente. Ainda que apresentasse dificuldade para respirar, o enfermeiro não parava de dizer que aquilo era minha culpa; a informação que eu lhe dera o pusera em desgraça. Sem esperar resposta, ele passou a dizer após cerca de três horas de jogo com alguns desconhecidos, um escritor, talvez acreditando ter uma mão imbatível, apostou tudo que tinha, inclusive a bela aliança de sua ex-esposa morta de tuberculose. Os outros jogadores não aceitaram a aposta, mas o enfermeiro lembrando-se de minha dica teve certeza que aquela era sua chance de fazer fortuna. O que ocorreu pois ele levou uma grande quantia em dinheiro do escritor além do valioso anel. Após perder, o inconformado viúvo fora posto à força para fora do bar por mostrar-se um mau perdedor.


Terminada a jogatina, o enfermeiro tomou a direção do hospício para que o responsável pelo turno da manhã não percebesse sua ausência. Num beco, ele foi surpreendido pelo escritor que portava uma faca e exigia-lhe de volta o anel; o dinheiro não lhe interessava. A embriaguez extrema do homem fez parecer que sua ameaça não era séria, porém, demonstrando uma agilidade inesperada o antigo dono do anel esfaqueou o enfermeiro. Irado, este último esmurrou seu atacante e começou a estrangulá-lo, mas lembrou-se que as autoridades certamente viriam atrás do assassino de uma figura que embora decadente, pertencia à elite da cidade. Além do mais, caso o infeliz morresse, ele seria o principal suspeito uma vez que todos testemunharam as desavenças entre ambos após a aposta. Então, tentando dificultar a identificação do escritor que jazia inconsciente, o enfermeiro roubou-lhe os documentos e vestiu-lhe com trapos achados no lixo.


Aquela era a história que o trouxera até a porta de minha cela. Naquele momento, desorientado pela hemorragia, o desgraçado deixou-se convencer que eu era sua única chance de não morrer. Num último ato inconseqüente, ele me libertou. Minha primeira providência foi sufocá-lo e arrastá-lo até minha cela; eu nunca lhe contei que as palavras que originalmente me vieram, eram para que ele não aceitasse a aposta; começava a ter controle sobre meu novo dom. Em seguida, despejei o conteúdo de várias lamparinas pelo chão e ateei jogo no maldito lugar. Conforme soube depois, a única pessoa jamais identificada entre os corpos carbonizados fora o enfermeiro.


Após fugir do país, juntei-me a um circo itinerante tornando-me uma de suas principais atrações “o caolho que prediz a sorte”. Mas é claro que não abandonei o único propósito que me mantém vivo: encontrar e matar o gato preto. Eu sei que aquele demônio continuar a me perseguir e para ter certeza que ele vai me encontrar eu o provoco com o passatempo que desenvolvi desde que fui preso: ocultar pessoas sob tijolos.

Pau que nasce torto...




Orestes nascera com aquela certeza; desde pequeno quando perguntado sobre o que seria quando crescesse, respondia sem pestanejar: ladrão. No início, seus pais acharam que aquilo era algo inócuo, como no caso de crianças simpatizantes de bandidos na inocente brincadeira de polícia e ladrão; a tataravó do counter strike. Infelizmente, para desgosto de seus progenitores, Orestes era na realidade, um caso extremamente precoce de certeza quanto à vocação profissional. Conforme cresceu, o aprendiz de trombadinha foi aprovado com louvor no bacharelado em competências para meliante.

Seu único ressentimento era nunca ter conseguido uma boca de fumo toda sua. Mas as alegrias da vida que escolhera compensavam em muito essa frustração. Por exemplo, nada derramava mais adrenalina no sangue do sujeito que ir até a pista para confiscar coisas de seu agrado. O vício pela substância endógena era tão grande que vez ou outra, ele esquecia uma das mais importantes regras para um assaltante: se o indivíduo quer ter uma carreira curta e não curtíssima, deve saber retirar-se da atividade de tempos em tempos quando a coisa esquenta. Foi numa dessas crises de abstinência hormonal que ele desrespeitou essa regra e acabou entrando nas estatísticas de fatalidades produzidas pela força policial.

Quando acordou, ele estava deitado num lugar bem silencioso. Ao sentar-se, duas moedas que estavam sobre seus olhos caíram no chão. Aquilo foi realmente esquisito; acabara de morrer sem um único centavo e ao ressuscitar, tinha duas belas moedas de ouro! Para completar a esquisitice, os furos de bala, gentilmente produzidos pelos policiais, tinham desaparecido.

Levantou-se, encheu os pulmões de ar e percebeu que não poderia estar mais disposto. Deu uma olhada ao redor e viu um rio no qual uma canoa e seu condutor pareciam estar lhe esperando. Aproximando-se do barqueiro, percebeu que este lhe estendia a palma da mão solicitando suas recém adquiridas peças de ouro. Aparentemente em troca, o dono do barco o levaria até o outro lado do rio.

Aquela oferta descabida, levou Orestes a converter-se numa prova viva que mortos também são tocados pelas musas inspiradoras. Sem aviso, deu às costas ao barqueiro e foi implementar seu negócio inovador. Desde então, cada novo falecido que se materializava no local, tinha sua passagem para o outro lado do rio confiscada antes que despertasse.

Devidamente ocultado, o tesouro de moedas crescia em proporção geométrica. Orestes pensava em como seria bom se sua mãe já não tivesse feito a travessia; ela poderia ver o quão bem sucedido seu filho se tornara.

Infelizmente, o novo empreendimento tinha alguns pontos negativos. Em intervalos regulares, Orestes precisava mandar os mortos recém chegados se dispersaram, pois sem ter para onde ir, eles tendiam a ficar vadiando próximo à margem. Isso aumentava tremendamente a densidade geográfica da área. Mas com certeza, o maior imbróglio encarado por ele era o que fazer com toda sua fortuna. Quem sabe ele pediria uma dica para o barqueiro um dia desses?

Indigente


Legista experiente, Vitório sabia ser só uma questão de tempo para que os sem-teto começassem a perecer numa pandemia de congelamento pelas ruas da cidade. Afinal, isso acontecia todos os anos e aquele inverno em particular, estava se consolidando como o mais frio dos últimos tempos. Por isso, ele não se surpreendeu quando o sujeito do carro coletor lhe informou que o recém chegado morrera de hipotermia. Ele só ficou um pouco aborrecido pois estava próximo do fim de seu turno e pensou que o motorista poderia ter-lhe feito o favor de trazer o corpo para o legista do próximo horário.

Pelo menos o frio tinha um lado bom quando se tratava dos indigentes. Quase sempre aqueles infelizes ficavam dias abandonados em becos ou valas até que alguém se dispusesse a chamar a polícia para recolhê-los. Com o sujeito que acabara de chegar não tinha sido diferente; provavelmente ele estava morto há dias, mas graças ao frio, seu estado de decomposição não era dos piores. De qualquer modo, por que se preocupar com a chegada do desconhecido? Ninguém ligava se eram ou não examinados. Bastava fazer uns cortes para simular um exame e verificar se o inconveniente não apresentava nenhum sinal evidente de doença infecto-contagiosa. Depois era só preencher um relatório com as causas de obtido óbvias: bebedeira, hipotermia ou o mais provável, morte provocada por hipotermia precedida de bebedeira.

Uma inspeção visual demonstrou que não havia nada de extraordinário no falecido: homem branco, cerca de 40 anos, sujo e vestindo farrapos ainda mais sujos. Seu rosto inchado pelo álcool e deformado pelo rigor mortis davam-lhe a aparência de um manequim barato e mal feito. Qualquer que tenha sido sua aparência, ela estava perdida; nada mais justo para um derrotado que não deixar lembranças. Provavelmente aquele sujeito não passava de um qualquer que se entregou por causa de um ou outro motivo banal.

Pouco antes de terminar o pseudo-exame, o braço esquerdo do morto caiu para fora da mesa. Quando Vitório puxou o membro enrijecido pela mão esta última fraturou-se. Ele percebeu que sob a pele de aparência relativamente jovem, ambas as mãos do morto pareciam apresentar uma densidade óssea extremamente reduzida. Se osteoporose já era uma doença menos comum entre os homens quando comparados às mulheres, num indivíduo daquela idade, a condição chegava a ser algo extraordinário. Contrariando sua motivação inicial, Vitório resolveu examinar o indigente de forma bastante minuciosa, mas logo percebeu que, além das mãos, não havia nada de diferente nele.

O dia seguinte, uma quinta-feira, era véspera de Corpus Christi e Vitório emendou o feriado graças a um colega que estava em débito com ele. Uma massa de ar polar que, reduziu ainda mais a temperatura da cidade, foi o pretexto que precisava para não levar o casal de filhos à praia. Claro que nem eles, nem Lídia, sua ex-mulher, ficaram satisfeitos. As reclamações não o incomodaram, porque acreditava nada ser suficiente para sua antiga família.

A tal massa de ar polar decidiu prolongar sua estadia sobre os céus da cidade e no início da nova semana conseguiu a proeza de empurrar o mercúrio ainda mais para o fundo do termômetro. Esse foi o gatilho para que outros moradores de rua viessem engrossar as fileiras de indigentes mortos por hipotermia metrópole afora. Entretanto, contrariando as probabilidades, nenhuma das novas vítimas chegou até as mãos de Vitório; em função dos locais e/ou do horário onde foram encontradas, elas foram dirigidas aos outros IML da cidade.

Enquanto o número de mortos pelo frio batia as marcas de anos anteriores, reportagens sensacionalistas cobravam providências das autoridades competentes. Essas por sua vez, garantiam que até o fim do inverno, ninguém mais ficaria nas ruas à merce das intempéries. As promessas jogadas ao vento trouxeram como resultado mais dois homens mortos no ínicio da terceira semana de inverno; esses chegaram num sábado durante o horário de trabalho de Vitório.

Como a rotina do IML não era determinada apenas pelo clima, mas principalmente pelas festas do final de semana, nessa mesma ocasião, Vitório estava atolado com a emissão de laudos para três moças e dois rapazes que terminaram a sexta-feira misturados a um poste. Graças a isso, ele designou os dois indigentes a um médico novato que ficaria encarregado de preencher os respectivos relatórios.

Horas depois, quando o rapaz já tinha ido embora, Vitório decidiu dar uma supervisionada em seu trabalho já que se algo estivesse errado, seria ele a pessoa de quem cobrariam o erro. Assim que comparou os relatórios, uma onda de calor subiu por seu tórax e ele jurou que, no dia seguinte, seria ele mesmo quem faria a necropsia do legista calouro. Como era possível o novato não ter percebido que suas mensurações apresentavam uma variação que em média não era maior que duas ou três unidades de medida? Aquilo tornava os dois mortos praticamente idênticos! A melhor coisa a fazer era repetir as principais medidas feitas pelo pateta e, assim, dar uma disfarçada nos relatórios.

Para o horror de Vitório, suas cinco primeiras mensurações confirmaram o que estava anotado nos registros! Aquilo não era possível. Desorientado, ele empurrou para o canto da sala as várias mesas que estavam entre os dois indigentes e colocou-os lado a lado. Era curioso, mas somente agora, importava-se com o fato daquelas duas coisas à sua frente já terem em algum momento, ostentado uma individualidade, o que provaria que ele não tinha perdido a razão. Talvez em punição às tantas vezes que o legista não viu mais que carne morta à sua frente, a decomposição apagara qualquer história daqueles homens; agora, somente os números amarrados aos dedos de seus pés pareciam estar convictos o suficiente para afirmar que aqueles homens não eram um só.

Conforme todos os itens do relatório eram revistos, a semelhança entre os indivíduos ficava mais evidente. Ao perceber que eles eram inúteis para ajudar na diferenciação dos corpos, Vitório passou a procurar por sinais ou marcas particulares que normalmente não eram registradas. Minutos depois o legista percebeu que a única característica poupada pelas forças desagregadoras da morte era a aparência das mãos. Na verdade, elas não poderiam ser mais díspares!

O sujeito cujo nome desconhecido fora substituído por uma etiqueta de número 337, tinha as mãos manchadas, cheias de minúsculos pontos. Ao avaliar esses pontos sob uma lupa, Vitório percebeu que cada um tinha uma cor diferente, como se fossem manchas de tinta. Já o que teve de esperar que outros trezentos e quarenta e cinco sujeitos fossem encontrados pelas ruas antes de ter sua chance de pisar no palco dos indigentes, o 346, tinha as mãos extremamente pequenas e enrugadas, mas apropriadas a uma mulher idosa do que a um homem de 40 anos.

Então, Vitório se lembrou do outro indigente que examinara duas semanas antes. Quando localizou o arquivo correto, ele amaldiçoou-se por ter deixado a preguiça levá-lo a não registrar os dados daquele homem. Independente disso, o legista se lembrou que de modo similar aos 337 e 346, o 319 também tinha uma particularidade bizarra nas mãos; elas se quebravam ao menor toque!

Nas horas que se seguiram, Vitório ligou para os outros três IML da cidade dizendo que a família de um figurão seqüestrado suspeitava que seu parente pudesse ter sido enterrado como indigente nas últimas semanas. Obviamente, essa abastada família ficaria muito grata em recompensar aqueles que identificassem seu ente querido. Motivados pela falsa história, não demorou para que seus colegas legistas enviassem todos os dados de homens que se assemelhavam à descrição fornecida por ele.

Pelo que pôde constatar, em pelo menos dois casos, os corpos eram praticamente idênticos aos 319, 337 e 346. Claro que aqueles homens não podiam mais ser examinados pois já tinham sido jogados sem caixão, numa vala comum qualquer. Graças a isso, muito provavelmente, nem mesmo as mãos deles estariam preservadas. Outra coincidência percebida era que, considerando a região da cidade em que foram encontrados, aqueles corpos deveriam ter parado em suas mãos, o que só não ocorreu porque quando finalmente os carros coletores chegaram ao local, à unidade de IML na qual trabalhava já estava fechada.

Aquilo só podia ser uma mensagem cujo destinatário era ele. De repente, descobrir o que estava acontecendo tornou-se tão angustiante como desobedecer aos estímulos nervosos que levavam os vivos a respirar. Ele nunca acreditou que a morte ocultasse qualquer segredo; aquele sempre fora o momento de cortar a carne e enterrar os restos. Talvez por isso, não estivesse pronto para simplesmente esquecer. Assim, apanhou tinta e coletou as digitais dos corpos 337 e 346. Em seguida, ligou para um colega policial do instituto de identificação e pediu-lhe que tentasse descobrir os donos das impressões que iria lhe enviar. Como esperado, seu colega não fez nenhuma pergunta, afinal, Vitório nunca as fazia quando o policial lhe solicitava para classificar como indigentes alguns corpos crivados de bala.

Horas depois o policial ligou dizendo que o favor fora mais fácil que o esperado: o sujeito tinha passagem na polícia. Quando Vitório perguntou qual deles, o policial abriu mão de sua habitual descrição e não poupou o legista de gozações: ele coletara duas vezes as impressões do mesmo indivíduo! Então Vitório viu seus corpos 337 e 346 serem rebatizados como José Carvalho dos Reis. Por último, o policial disse que talvez o legista tivesse sorte de identificar algum parente no endereço que tinha encontrado.

No dia seguinte, Vitório deixou um de seus auxiliares encarregado do turno e foi até o endereço de José Carvalho dos Reis. O lugar não se encaixava perfeitamente às supostas posses de um indigente; ele ficava numa região de classe média alta. Na portaria do prédio identificou-se como médico legista e que procurava por qualquer parente do falecido. O funcionário do prédio desculpou-se mas pediu-lhe que mostrasse diversos documentos; segundo ele, aquela era sua primeira semana no serviço e seu antecessor fora demitido justamente por ser descuidado na admissão de pessoas.

Ainda desconfiado, o porteiro acionou um interfone e após alguns segundos voltou com a resposta de que o morador do apartamento informado por Vitório não queria vê-lo. Disposto a testar a ignorância do rapaz, o legista insistiu dizendo que voltaria com a polícia pois sua atitude estava atrapalhando a investigação de um crime. Intimidado, o rapaz permitiu que o médico falasse ao interfone. Do outro lado da linha, uma moça acabou cedendo ao insistente médico e permitiu que ele subisse até seu apartamento.

Ao abrir a porta, ela não correspondeu ao aperto de mão dele e, após identificar-se, encorajou-o a dizer logo o que o tinha trazido ali.

_ Dona Ana, temo não ter boas notícias. Encontramos o corpo de José Carvalho dos Reis. A senhora pode me dizer qual seu parentesco com ele?

_ Ele era meu irmão...

_ Sinto em ser eu a dar-lhe essa notícia, mas ele foi encontrado na rua e trazido ao IML como indigente.

_ Eu não sabia que o IML saia à cata de indigentes.

_ Bem, nós...

_ Se quer minha ajuda, doutor, diga logo do que se trata. Embora não pareça, sou assistente social, felizmente posso me dar ao luxo de trabalhar no que gosto, sem ficar preocupada em ter uma profissão para ganhar dinheiro. Por isso mesmo, sei exatamente o que vocês fazem com indigentes e não simpatizo com tais práticas, sejam elas usadas em meu irmão ou não.

_ Me desculpe, dona Ana. Mas a história real não é das mais críveis, por isso tentei ir por outro lado. Muito bem. O fato é que nas últimas semanas, deparei-me com alguns sinais físicos bem peculiares em pelo menos três corpos; todos de indigentes. No meio da investigação sobre o que estava acontecendo, encontrei as impressões digitais de seu irmão.

_ Doutor Vitório, o senhor tem razão. Sua história não é corriqueira, mas eu lido com pessoas e com o tempo, aprendi a separar verdades e mentiras. Por isso, vou dizer-lhe o que sei.

_ Obrigado.

_ Em primeiro lugar, para ser sincera, não me surpreende que José tenha tido o destino que teve. Só achei que isso ia acontecer bem antes, há pelo menos um ano.

_ E por quê?

_ Como pode ver, meu falecido pai era um homem de posses; muitas mesmo. Apesar disso, ele nunca admitiu que eu ou meu irmão tivéssemos as coisas sem esforço. O desejo de meu pai era que José fosse um geriatra, como ele, mas meu irmão nunca conseguiu terminar a faculdade de medicina; José estava mais preocupado em drogar-se e ir a festas. Por causa disso, chegou a ser preso por curtos períodos, o que contribuiu para que ninguém o empregasse. Sem alternativas, meu pai resolveu ir contra seus princípios e empregou o filho em sua própria clínica.

_ E o que seu irmão fazia lá?

_ De tudo, doutor, serviços de limpeza e manutenção. Bem, pelo menos era isso que todos acreditavam até que alguns idosos começaram a reclamar.

_ Seu irmão os agredia?

_ Não exatamente, ele lhes roubava os pertences. Por que não entra e se senta doutor?

_ Ah, obrigado.

_ Como ia dizendo, aos poucos os roubos de meu irmão começaram a chamar atenção, mas meu pai tentou encobrir tudo repondo aos idosos o que tinha sido subtraído. Acho que no fundo, ele pressentia que se José saísse da clínica, ele teria seu fim nas drogas. A estratégia de papai funcionou até que dona Coré apareceu. Pelo que sei, meu irmão também roubou algo dela, mas diferente dos outros furtos, esse não teve nenhuma repercussão pois logo ela morreu. Para completar, seus parentes não deram falta de nada e só apareceram para apanhar os quadros da mulher; aparentemente ela era uma pintora famosa e eles valiam fortunas. Infelizmente para ele, meu irmão nunca soube disso.

_ Então como isso o prejudicou?

_ Acontece que ele começou a agir de forma estranha. Depois que José desapareceu, eu já chego lá, soubemos que ele disse a outro faxineiro da clínica que dona Coré tinha voltado.

_ O fantasma dela?

_ Não exatamente. Duas outras idosas chegaram na clínica e faleceram com menos de uma semana de permanência; meu irmão recusou-se a ajudar os outros funcionários na remoção dos corpos e não fez mais nenhum serviço no quarto em que morreram. Ele tinha uma fé absoluta no fato de que aquelas mulheres eram na realidade a dona Coré.

_ E elas eram realmente tinham semelhanças?

_ Quando perguntei isso ao colega faxineiro dele, a resposta foi que ele nem mesmo as achava parecidas! Mas o pior aconteceu no caso de uma terceira senhora. Naquele dia, alguns funcionários da clínica chegaram correndo no quarto dessa mulher atraídos por gritos terríveis de meu irmão. Ela estava imóvel sobre a cama e José estava prestes a cortar-lhe a mão esquerda quando foi contido. A mão direita tinha sido atirada pela janela do quarto. Enquanto o seguravam, ele gritava para que o deixassem acabar de uma vez por todas com dona Coré. Lamentavelmente, nós o perdemos pois apesar da vida desregrada, tinha uma enorme força física e acabou conseguindo escapar dos funcionários antes que a polícia chegasse. Isso foi há um ano e desde então não tive mais notícias dele.

_ Então seu irmão matou essa mulher?

_ Isso é o mais estranho, doutor. Dias depois, um colega seu disse que a mulher morrera de causas naturais e que já estava morta quando meu irmão arrancou-lhe a mão. Creio que meu pai foi generoso com esse legista para que ele abafasse a história.

_ Mas o que seu pai lhe disse disso tudo?

_ A mim nada; suas opiniões sobre os atos de meu irmão desceram com ele ao túmulo dois meses depois.

_ Sinto muito.

_ Eu também...

Com a promessa de que compareceria no IML na segunda-feira para liberar o corpo do irmão, Ana despediu-se de Vitório. O legista só não sabia qual dos dois corpos entregaria a ela, mas aquilo não importava. O importante era que agora sabia o que estava acontecendo: estava testemunhado à existência de algo além da vida física e, dentre bilhões de seres humanos, ele em particular, fora escolhido para ter um papel relevante nos desígnios de Deus. Afinal, o fato de que José Carvalho dos Reis estar aparecendo várias vezes significava que era sua missão ajudar a identificá-lo e dar-lhe um enterro descente. Por algum motivo, o arquiteto divino perdoara os pecados de José e cabia a Vitório ser um instrumento de tal misericórdia.

Tomado pelo êxtase, chegou à portaria que estava vazia. Sem dificuldade encontrou o botão que controlava o portão e saiu. “Deus, como está frio” pensou. Considerou-se um tolo por esquecer que era inverno e, para piorar, em comparação à hora que chegou ao prédio de dona Ana, a temperatura tinha caído bastante. Felizmente, dali a três quarteirões estaria no local em que conseguiu parar o carro; lá dentro estaria aquecido pelo ar condicionado.

A rua estava deserta e na esquina seguinte, Vitório tomou um susto ao ver um homem encolhido no chão; imediatamente lembrou-se de José, mas então, o infeliz se moveu um pouco demonstrando estar vivo. Refeito do susto, Vitório brincou ao passar pelo mendigo:

_ Nos vemos amanhã.

A poucos metros de seu carro, ele começou a ouvir passos vindos de várias direções, mas até onde a neblina permitia ver, uma inspeção de trezentos e sessenta graus não revelou ninguém se aproximando. Por precaução, completou o percurso até o carro, sem tirar os olhos da retaguarda. Ao abrir a porta do veículo ouviu em uníssono:

_ Obrigado...

_ Escutem bem, sou legista, não tenho um tostão, portanto, não adianta me roubarem...

Ao voltar-se, percebeu que os assaltantes estavam em cinco; o mendigo que vira segundos atrás e mais quatro vestidos de modo idêntico. Então o grupo repetiu:

_ Obrigado por me ajudar, doutor Vitório.

_ Mas do que é que vocês estão falando?

Em resposta, os quatro companheiros do mendigo atacaram impiedosamente o legista e só pararam quando havia mais sangue fora que dentro de seu corpo. Em seguida, apanharam o cadáver e desapareceram entre a névoa e o muro de uma casa próxima. Por fim, o mendigo os seguiu; ao partirem eles deixaram as únicas provas materiais de que realmente estiveram ali, as etiquetas numeradas que traziam presas aos dedos dos pés.

Doze meses depois, maldizendo sua sorte por ter tido que trabalhar num dia tão frio de inverno, o professor Douglas Ferreira se depara com um homem, cujas mãos estavam cruzadas sobre a cabeça, sentado em frente à porta de sua casa. Decidido a espantá-lo dali, o professor toca o sujeito e descobre que além de estar morto, ele tem um cheiro fortíssimo de formol nas mãos.