
sábado, 21 de janeiro de 2012
A primeira vez

quinta-feira, 4 de agosto de 2011
Bala Santa

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Abaixo a Matemática

Sei que vivemos numa era na qual somente uma minoria, os especialistas, tem a prerrogativa de opinar sobre questões relevantes. A nós os leigos, resta apenas acreditar no que diz tal minoria; entendamos a mensagem ou não. Entretanto, encorajado pelo vinho de cinco reais comprado com uma das parcelas do bolsa família, resolvi insubordinar-me contra a ditatura que me proibi opinar sobre o quê não entendo.
Por certo meu protesto será considerado um ato desesperado de um ser que desconhece o posto que lhe cabe. Especialmente porque resolvi manifestar minha insatisfação contra que aquela que é a mais arcana das especialidades, a Matemática. Bem, arcana ao menos para uma mente incapaz de entender a diferença entre holístico e integral.
Dito isso, revelo meu guia nessa empreitada: uma memória de causar inveja no mais bem dotado dos paquidermes. Pois bem, o registro mais significativo sob meu poder é o que afirmava ser a ciência dos números “a base para o entendimento das leis que regem o universo conhecido”. Exagerando a hipérbole, minha professora dizia que ao encontrarmos seres extraterrestres nos comunicaríamos com eles por meio da Matemática!
Daí que o maior uso dos números é no convencimento de que vivemos no melhor dos mundos. Veja só, quando uma nova epidemia assola o planeta os especialistas em matemática dizem: “não temam, em 99,9% dos pacientes essa doença não apresenta sequelas, as poucas mortes foram fatalidades”. Já quando um acidente aéreo vem ressuscitar nossa desconfiança natural quanto a tirar os pés do chão dentro de uma caixa que pesa milhares de quilos, eles proclamam: “voar é o meio de transporte mais seguro do mundo, as chances de acidentes são de menos de uma em tantos milhões”.
Felizmente fui salvo da prepotência dos números por uma classe de homens de inestimável saber obtido na escola da vida, os políticos. Nossos estimados representantes preferem acreditar naquilo que vai no coração, pois sabem que nada de bom surge dos números, pelo contrário. Sim, enquanto os especialistas tentam nos convencer que a probabilidade de ficarmos doentes é baixíssima, logo que sentem que podem estar enfermos, os políticos partem para o melhor e mais próximo hospital a fim de se tratarem. Por outro lado, quando um avião de uma companhia aérea qualquer cai por falta de manutenção, as aeronaves públicas à disposição dos políticos são prontamente revisadas.
Obviamente minha confiança nos políticos não se deu modo instântaneo; antes de a luz se fazer presente, a oposição estes e os especialistas me deixou confuso. Em que deveria confiar? Foi então que, mais uma vez, minha memória me indicou a saída do labirinto. Me apossei da solução de um grande homem que também passou por uma crise semelhante em relação à verdade e disse: penso, logo existo. Então pensei: quais serias as probabilidades de eu não ser um completo imbecil caso a Matemática estivesse certa e os políticos errados? Como definitivamente não tenho nem uma fração de bobo, conclui que o único resultado possível era o de que a Matemática estava errada! Isso mesmo, repito: errada!
Não é à toa que se diz que todo consenso é burro! Afinal, uma pesquisa recente demonstrou que profissão mais desprezível do mundo é a de político. Prefiro acreditar que esses mal avaliados senhores são profissionais mais devotados até que os bombeiros, eleitos como queridinhos da população mundial.
Enfim, por tudo isso quero que se juntem a mim no movimento de minha autoria batizado de “abaixo a Matemática”. Façamos como nossos visionários políticos que já entenderam a moral do velho ditado “existem mentirosos, malditos mentirosos e estatísticos”.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
A vila dos Fiéis

Naquela sexta-feira uma enorme agitação me despertou; a cidade toda estava à minha porta e no comando do espetáculo papai, o delegado do lugar. O motivo da confusão era a Vila dos Fiéis, cidade minúscula a doze quilômetros, cujos habitantes seguiam uma religião desconhecida e eram muito reservados.
Entre os poucos contatos que mantinham com o mundo exterior estavam as visitas do doutor Medonça aos enfermos. Acontece que naquela manhã, o médico encontrara todos os habitantes da vila paralisados; ninguém tinha morrido, mas nada que já fora vivo era capaz de se mover. Foi questão de instantes para que alguém dissesse que aquilo era um castigo de Deus e se qualquer um saísse da vila, a praga recairia sobre nossa própria cidade.
Discretamente apanhei minha moto e sai em disparada para a Vila dos Fiéis antes que chegassem lá para isolá-la. Ao entrar no lugar, passei a procurar pela garota que amava em segredo, tal era o sigilo que nem Julia conhecia meus sentimentos.
Quando a encontrei, meu primeiro pensamento foi levá-la para minha casa, mas tive medo do que aqueles malucos poderiam fazer com ela. Apanhei seu corpo inerte, levei-a até um sofá e resolvi esperar.
O sábado veio tomar lugar da sexta e Julia e os outros não apresentaram qualquer mudança; sua paralisia era tal não reparei sequer que alguém tenha feito suas necessidades nas roupas; toda sua fisiologia estava paralisada. Tão pouco meu pai e os seus apareceram.
No domingo pela manhã, acordei assustado com um enorme estrondo e ao abrir os olhos, Julia sorria para mim com uma expressão de surpressa. Toda sua cidade tinha voltado ao normal; pedindo desculpas a ela e seus familiares prometi que voltaria para explicar tudo e parti.
Quando cheguei, descobri que um terremoto engolira minha cidade com todos seus moradores.
Ídolo

Antes
Estimados, irmãos. Espero que quando nos encontrarem essa mensagem os ajude a entender o motivo de tão temerária atitude. Por mais que tentássemos, eu e minha parceira, não fomos capazes de viver nesse mundo. Então, nossa falha para com vocês é dupla: a partida sem aviso e a incapacidade de nos estabelecermos aqui, tal como todos vocês desejavam.
O fato, meus caros, é que neste exato momento meu tempo se exaure; no início, a degeneração celular só podia ser detectada por meios de testes laboratoriais, mas, de um mês para cá, o processo se tornou tão evidente que mal é possível realizar atividades banais em meio à dor e a dificuldade de coordenar os músculos desse corpo.
Também contribui para meu desespero o fato de minha companheira se encontrar num estágio bem mais avançado da patologia, seja por qual for a causa. Apenas eventualmente sua razão decide se manifestar e quando o faz, é para cobrar o cumprimento do pacto que fizemos quando da terrível descorberta: o de praticar o suicídio. Embora isso não fosse novidade para ela quando saudável, agora em seus momentos de lucidez, tenho de lembrar-lhe que, sem a devida preparação, sem algo para preservar nossas essências, suicidar-se significaria estar perdido por toda a eternidade. Claro, meus esforços são inúteis, finda minha explicação ela já tornou a ser sequestrada pela loucura da doença.
Ainda que não acreditemos nas coisas não científicas, meus irmãos, ao menos hoje, no último dia em que permaneceremos vivos, ela decidiu não interromper seu descanso, concedendo-me o tempo necessário aos ajustes finais. Seria o acaso? Sim, hoje deve ser o dia derradeiro pois mesmo que a doença nos permitisse mais alguns momentos, os primitivos das cavernas nos dizimariam em represária ao que fizemos a seus dois companheiros; hoje é noite sem lua.
Não preciso tê-los observado por longos períodos para saber que nessas noites algo inexplicável parece aumentar-lhes a coragem. Não estou por acaso sentido semelhante força, mesmo nesse corpo degenerado? Ao contrário dos ataques anteriores, no que está para acontecer daqui a algumas horas, não teremos condições de repelir os primitivos. Concluo aqui minha mensagem a vocês. Adeus, meus irmãos, e até breve.
- Ah, olá, como se sente? Acabei de transferir os dados da última mensagem à rocha calcária e não percebi que tinha se levantado. Você me deve obediência, portanto, é meu desejo que volte a descansar até que tudo esteja pronto.
_ Temos que fazê-lo agora, a dor...é insuportável...
_ Ouça, minha cara, falta pouco, talvez duas, quem sabe, uma hora para podermos nos desfazer dessa tortura sem riscos. Só preciso acabar de preparar a rocha.
_ Agora, por favor...
_ Paciência, a pedra já está pronta para receber energia, mas ainda não pode emitir um sinal rastreável. Além disso, tenho de tratá-la para que não seja danificada ou tudo será em vão.
_ Temos de fazê-lo, você prometeu...
_ Chega de disc...ei, por favor, largue a arma. Tente raciocinar, não...arghhhhh...
_ Não se preocupe, comandante, agora você pode descansar. Não tente estancar o sangue desse corpo, morra. Venha...ahhhh, já sinto sua essência vibrando na rocha. Estou indo lhe encontrar...
Pouco depois
Só um dos homídios foi bravo o bastante para se aproximar dos corpos deformados e ensanguentados de seus dois irmãos desaparecidos há meses. Talvez por seu papel na hierarquia da tribo, aquele bravo tenha sentido que a estranha pedra, diferente de todas que já vira, o estava chamando...
Hoje
_ Professor, muito obrigado por nos conceder essa entrevista.
_ É um prazer recebê-los em nosso museu. Pode me chamar de Abel.
_ Bem, Abel, não tenho dúvida que, em relação ao acervo do museu, a maior curiosidade de meus leitores é sobre o ídolo pré-histórico. Segundo se diz, a razão dele nunca ter sido exposto antes, apesar de ter sido descoberto há mais de duzentos anos, se deve aos estranhos fatos a ele relacionados. Coisas como liberar lágrimas de sangue, sons e vibrações estariam entre os fatos testemunhados pelos pesquisadores que tiveram acesso à peça. O que o senhor tem a dizer sobre isso?
_ Minha, jovem. Crer em tais coisas, talvez fosse sensato para nossos antepassados de trinta mil anos atrás. Afinal, eles esculpiram o ídolo justamente por serem supersticiosos. Mas hoje, o máximo que posso dizer sobre tais crenças: absurdo!
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Barbeiro

quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Noite no campo

Até bem pouco tempo, eu tinha certeza de ter nascido na Alemanha errada; a atual juventude alemã me enojava. Me incomodava particularmente a crença de alguns jovens de que nós, os legítimos alemães, havíamos causado grande sofrimento a judeus, ciganos e outras aberrações. Segundo eles, milhões de almas ainda hoje, estariam sofrendo nos lugares de seus martírios originais.
Foi por causa desse tipo de ideia, que há alguns meses eu quase quebrei a cara de uns almofadinhas no colégio e só não o fiz, porque alguém propôs algo mais interessante. Conforme disseram, caso eu estivesse certo e as vítimas do nazismo não fossem gente e muito menos tivessem alma, uma noite num antigo campo de concentração considerado assombrado, não teria maiores consequências. Por outro lado, se os almofadinhas tivessem razão, eu haveria de encontrar alguns espíritos por lá e teria de me desculpar.
Casado o dinheiro da aposta, apanhei minha bicicleta e cobri os cinco quilômetros de Munique até Dachau numa noite chuvosa. Não foi difícil entrar no antigo campo pois as autoridades responsáveis por sua administração, não se dignavam a investir em segurança acreditando que ninguém macularia o lugar. De acordo com o combinado, apanhei meu colchonete e rumei para um dos chuveiros a fim de passar a noite na sala de morte.
Surpreendido, devo confessar que no início assustei-me com um bando que vi aos berros na porta da câmara de gás, mas logo veio a decepção; tinham tido uma ideia melhor que a minha. As suásticas e insígnias nazistas nas roupas dos agressores não davam margem de dúvida quanto ao que acreditavam; no chão um bando de garotos com cor e aparência erradas recebia chutes enquanto era verbalmente agredida. Assim que me viram, aqueles que eu supunha serem alemãos dignos, sorriram e me convidaram para beber cerveja; atrás deles, no chão do lado de fora da câmara, ficou um bando de farapos ensanguentados.
Quando estava prestes a entrar na sala, meu pé foi retido com muita força por um dos rapazes agredidos; ele me implora “não vá, não vá”. Na hora não pude acreditar que o maldito pudesse ter a ousadia de me pedir ajuda e terminei aquilo com um pontapé na boca do infeliz.
Entrei na câmara rindo e meu novos colegas me fizeram um brinde. Foi quando as portas se fecharam e minhas vias áreas começaram a ser corroídas por uma espessa fumaça no mesmo instante que minha carne descolava-se dos ossos como se incinerada por um fogo invisível. Em minha agonia, eu era incapaz de distinguir quais eram de minha autoria e quais gritos vinham de meus companheiros que agora não passavam de esqueletos agonizantes. Então quando acreditei que uma dor capaz de descontrolar meus esfincteres não pudesse ficar mais intensa, percebi que estava enganado. Próximo do fim, um coro de orações me trouxe um fio de esperança; eram os jovens espancados que, do outro lado da porta, proferiam preces a Deus em meu favor.
Devo ter desmaiado pois na manhã seguinte fui encontrado pelos seguranças de Dachau e levado a um pronto socorro. Contudo, após a primeira noite lá, acabaram me trazendo para esse hospital psiquiátrico. Graças aos resultados normais de meus exames, nenhum dos médicos acreditou que meus gritos de dor e desespero tivessem origem somática; a loucura ocupou o lugar de um diagnóstico desconhecido. Então, desde a noite em Dachau peço duas coisas a Deus: perdão por não ter escutado aquela alma que me suplicou para não entrar na câmara de gás e para que ela e suas companheiras venham aliviar com suas orações, a purgação que passei a compartilhar, noite após noite, com os antigos soldados do campo de Dachau.