sábado, 21 de janeiro de 2012

A primeira vez




Ainda que ninguém confesse, a maioria das pessoas recebe a morte alheia com alívio. É comum que entre os que se encontram na presença do defunto alguém lamente: “pobre coitado(a)! Mas em seu íntimo o suposto piedoso quase sempre comemora: “graças a Deus que não foi comigo!” É um alívio tolo, pois a qualquer vivente me farei conhecer e, cedo ou tarde, cada um será tocado. Não poderia ser diferente já que uma das leis fundamentais da criação é que nada deve estar livre de mim!
Engana-se, contudo, quem pensa que meu trabalho é simples; na verdade, nem mesmo a mim é dado conhecer o momento exato do fim de um homem; não até que tal momento chegue! Não há destino, nada está escrito! Sou auxiliada apenas por um insight de que a hora se aproxima. E, quando uma sensação irresistível me domina, é o instante final.
Na hipótese improvável de o toque não ocorrer no momento exato, a vítima estaria livre de minha influência uma vez que cada vida tem apenas uma oportunidade de ser tocada. Embora a probabilidade seja ínfima, a ocasião na qual um homem tem mais chance de escapar de mim é aquela em que o evento causador da fatalidade dá-se pela primeira vez. Quando não sei como determinada situação destruirá o organismo de um ser tornando sua vida insustentável, devo confiar cegamento no já mencionado insight para cumprir minha tarefa.
Por tudo isso, devo confessar um segredo: toda vez que um ser experimenta o que se poderia chamar de “um novo tipo de morte” temo que a pessoa escape de mim por não conseguir tocá-la no instante específico. Então, a fim de evitar que aberrações incapazes de morrer venham a existir, tenho o hábito de criar regras: nessas ocasiões inéditas tomo nota de todas as características do evento e, assim que um segundo humano tiver de passar pela mesma experiência, passo a contar com, além de meu insight, informações preciosas.
Graças a essa coleta de informações tenho me tornado mais e mais experiente ao longo da História humana. No início da Pré-história, basicamente, morria-se por lesões induzidas por armas de pedra, ataque de animais ou das infecções decorrentes de tudo isso; não havia novidades. Mas a curiosidade humana levou a novas maneiras de matar e morrer. Comecei a ter trabalho aprendendo como instrumentos de bronze ou ferro exterminam uma vida.
Como se pode ver, nunca tive motivos para gostar da curiosidade humana, contudo, minha tranquilidade passou a ser particularmente ameaçada depois que a Ciência tornou-se o modelo para explicar o mundo. Eis que fui obrigada a entender sobre a letalidade de milhares de coisas novas como armas de fogo e dos acidentes aéreos. Muito embora os humanos possam justificar sua busca por conhecimentos como uma tentativa de melhorar sua qualidade de vida, tudo não passa de um desejo inconsciente de escapar aos designíos da criação. Nada mais que aprender para brincarem de gato e rato comigo…
Mas por que lhe conto tudo isso? Deve ser ansiedade, afinal, me parece que hoje é um dos dias tensos: meu insight me trouxe a um lugar que não conheço. Pelo que ouvi, os humanos o chamam de emissora de TV. Alguém irá morrer hoje aqui; sinto que é um jovem e ele está próximo. Ah, ei-lo de frente àquele estranho instrumento o qual me lembra as primeiras máquinas fotográficas. Alguém grita para ele “em 30 segundos você entra, assim que acabar o trecho que já gravamos”. Não sei o que isso significa e não me interessa, preciso apenas estar atento, pois algo inédito oriundo deste local deve comprometer de modo irreversível o corpo de meu alvo.
Sem aviso, o escolhido surgiu dentro do instrumento estranho para o qual estava de frente. Espere, o insight está se intensificando; será em segundos! O mesmo humano que havia gritado volta a dizer “vamos entrar, veja seu microfone”. Eis que a sensação torna-se insuportável! Será agora. Meu alvo toca o objeto chamado microfone e recebe uma descarga elétrica letal que lhe paralisa o coração e queima outros tecidos internos.
A eletricidade não me é estranha; já levei centenas de pessoas por causa dela. Sei exatamente como tocar alguém atingido por essa forma de energia! Não seria um evento inédito? Espere, enquanto um corpo jaz danificado logo ali, o homem continua falando dentro do aparelho!!! Talvez o instrumento parecido com uma máquina fotográfica tenha permitido à eletricidade dividir o homem em dois! Esse deve ser o evento desconhecido! Mas qual dos dois homens deve tocar?
Na infinitesimal existência de minha dúvida acontece o impensado: o momento do toque passa! Pouco depois, a metade do homem que falava na máquina sumiu ao mesmo tempo que a atingida pelo choque mortal levantou-se para o espanto dos presentes.
Foi a primeira vez que alguém a ser tocado deveria estar de frente para aquela estranha máquina e acabei cometendo um erro. Agora que percebi como ela funciona, guardando fotografias animadas das pessoas, é tarde demais. Não importa! Os humanos terão sua paga por me induzirem ao erro. Aquele que acaba de escapar de mim, experimentará nos braços da eternidade a dor de não poder mais ter relações duradouras. Já os que ousarem deixar imagens gravadas depois de serem tocados por mim, sofrerão enquanto os vivos puderem vê-los como se ainda estivem caminhando nesse mundo. Para estes, a eterna jornada espiritual só continuará quando todas as gravações tiverem sido destruídas, até lá eu os deixarei no meio do caminho entre essa etapa e a próxima.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Bala Santa





Frio, esta seria sua última sensação. Fosse o proveniente da arma encostada no céu da boca ou aquele do suor que escoria por suas axila, o frio era tudo o que teria. E, ainda que um ferimento à bala fosse quente, conforme diziam, quando uma estourou-lhe o crânio, suas terminações nervosas já não funcionavam para verificar tal crença.
Como servo de Deus, ele tinha recusado todas as convocações dos dirigentes do partido; destemido dizia que nem sua própria morte o demoveria desse posicionamento. Mas a guerra estava se tornando mais sangrenta e se não bastassem as humilhantes derrotas das tropas do partido, vários daqueles que haviam sido forçados a se tornarem oficiais estavam tirando suas próprias vidas. Desde o início dos combates aquele era o momento no qual todos os que podiam segurar uma arma de fogo eram necessários. O sacerdote era ainda mais valioso uma vez que era conhecido por sua inteligência e liderança entre os habitantes daquela região.
Zombando de sua última recusa, o representando do partido advertiu: ou ele aceitava se tornar um oficial e seguia na manhã seguinte para a frente de batalha ou seria obrigado a viver com a memória da execução de cada habitante de sua; o aviso incluiu um lembrete de que o suicídio do religioso não impediria o cumprimento da ameaça. Como se ele, um homem de Deus, pudesse realizar tal ato execrável.
Percebendo-se em cheque, naquela noite, deitou-se implorando a Deus que lhe desse um sinal. Não o tinha servido por toda sua vida? Não guiara seus fiéis em tempos de paz e agora, na guerra? Só o Senhor poderia ajudá-lo. Afinal, a guerra entre partidos tinha separado ex-amigos e irmãos em lados diferentes por simples questões de opinião. Era ir contra a lei divina de não assassinar seus semelhantes ou ver os habitantes que restaram em sua vila serem executados pelos membros do partido.
Então, o fato dele nunca ter duvidado da própria fé foi recompensando, pois em sonho uma voz lhe dissera: “Quem toma para si o destino alheio, deve viver com os frutos dessa escolha...” A sensação de que sob as trevas o autor da frase sorria de modo enigmático lhe causou arrepios. Mas ele, um homem de Deus, não fugiria à sua responsabilidade. Como se pudesse ler sua mente a voz disse “muito bem...”. Então, em seguida, um sinal e uma ordem surgiram fazendo-o acordar sem fôlego. Estava com lágrimas secas na face. Não importava, tinha o coração leve. Sabia que fora atendido! Deveria ir lutar para que sua vila não fosse massacrada, o senhor cuidaria do resto. Apanhou poucos objetos, dentre eles um canivete e partiu para o local indicado pelo representante do partido.
Lá, alguns dos oficiais pareciam surpreso com a decisão do sacerdote e riram com escárnio ao suporem que aquele homem não era tão determinado quanto parecia. Mas ele não se importou. Depois de receber armamentos e ser apresentado a seus homens, o novo capitão do exército do partido recebeu ordens de rumar imediatamente para a selva na qual se concentravam as batalhas. Ele, contudo, fez um último pedido a seu oficial comandante: que lhe fossem concedidos dois ou três minutos para orar a sós. Com um semblante de desprezo o superior concordou. Apanhando seu fuzil e pistola o sacerdote se retirou para uma parte mais afastada do acampamento, lá chegando não orou, ao invés disso, tratou de executar aquilo que Deus lhe havia ordenado. Com o canivete gravou em suas armas o sinal que recebera em sonho; embora não soubesse o que iria ocorrer, tinha fé!
Partiram, capitão e seus subordinados. Pelos olhares que recebia o sacerdote sabia que seus subordinados não tinham nenhuma confiança nele. Provavelmente, também não tiveram escolha: era obedecer ao novo oficial ou ser sumariamente executado. Em meio à selva, contudo, ninguém saberia se o sacerdote foi atingido por uma bala inimiga ou não; muitos dos homens pareciam se tranquilizar com essa ideia.
Haviam partido nas primeiras horas da manhã e no início da tarde ainda não tinham encontrado evidências dos inimigos. O agora capitão sabia que isso não duraria. Em pouco tempo encontraria pessoas com as quais crescera ou conhecia, mas que deveriam ser mortas por acreditarem numa forma diferente de gerir a própria vida em sociedade.
Por conhecer muitos daqueles homens tão bem, o sacerdote não acreditava nos rumores sobre quem iria combater. Dizia-se que lutavam como se possuídos por uma força capaz de tolher-lhes o medo da morte e que fazia com que tivessem prazer em lutar de forma pouco prudente, suicida, talvez fosse a melhor definição. Contudo, mais difícil de acreditar era a crueldade que se atribuía a eles: nem crianças pequenas eram poupadas de execuções bizarras. Não escapou à percepção do sacerdote que a descrição de como os corpos eram encontrados lembrava procedimentos ritualísticos. Ninguém sabia o quanto daquilo era verdade, pois eles não se deixavam capturar vivos ou se eventualmente isso ocorria, não falavam, mesmo sob forte tortura o que invariavelmente os levava à morte. Aquilo não combinava com o que sabia sobre os “inimigos”; eram pessoas boas que não teriam satisfação no assassínio e todas tinham conhecimento do castigo eterno advindo de atentar contra a própria vida.
De repente, o sacerdote e os membros de sua unidade viram-se cercados por gritos enlouquecidos vindos da vegetação ao redor. O que já era previsto para um bando de trabalhadores unidos à força sem qualquer vínculo entre si ou treinamento ocorreu: o pânico dominou-os e estes passaram a correr de modo desordenado facilitando o trabalho dos inimigos que os alvejavam indiscriminadamente. Só o sacerdote não se movia, com os olhos cerrados, sentiu que era chegado o momento de fazer o que sua fé dizia: puxar o gatilho. Então, sem mirar girou 360o sobre o próprio eixo e descarregou seu fuzil.
Ninguém foi capaz de dizer quanto tempo depois de o religioso ter descarregado sua arma começaram os gritos de dor. À medida que sobreviventes da unidade se reagrupavam de sua desastrosa debandada, o milagre pelo qual o sacerdote tanto rogou a seu deus tornava-se evidente: na floresta ao redor, todos os atacantes haviam sido atingidos! Tornando o acontecimento ainda mais “milagroso” estava a constatação de que embora os inimigos tivessem sido atingidos em locais como cabeça, tórax e/ou artéria femoral, nenhum deles estava morto! Nem mesmo a hemorragia decorrente dos tiros levavam as vítimas a óbito, embora permanecessem abertas as enormes feridas iam, pouco a pouco, tendo suas hemorragias estancadas. Também inexplicável era o fato de todos os alvejados permanecerem inconscientes ainda que os sinais vitais estivessem estáveis. Conforme os feridos iam sendo recolhidos à condição de prisioneiros, a dimensão do feito do líder da unidade ficou evidente! Não importava mais no que os membros da unidade acreditassem antes do ocorrido, agora todos sabiam que aquele capitão era um homem tocado por Deus!
Em poucos dias se constatou que os feridos permaneciam em seu sono; suas feridas continuavam abertas e sem sangrar! Novos fatos sobrenaturais foram percebidos: os corações permaneciam funcionando, contudo, as demais funções dos comatosos pareciam congeladas! Por exemplo, eles não urinavam ou defecavam durante sua inconsciência. Quanto ao sacerdote-capitão e seus homens estes se tornaram conhecidos em todo o exército do partido como a unidade “Bala Santa”. Alguns, mesmo vendo os prisioneiros inconscientes e seus ferimentos mortais que não matavam, ainda duvidavam. Mas muitos outros se ajoelhavam à passagem daqueles homens. Porém, todos, tinham inveja por não pertencerem a um grupo capaz de derrotar todos os seus inimigos sem que ninguém mais fosse morto desde o momento no qual o religioso revelara seu dom. Boatos davam conta de que só o capital lutava...
Graças à Bala Santa, pela primeira vez os soldados do partido estavam conseguindo o fazer o inimigo retroceder. Obviamente, o sacerdote não era onipresente e a melhoria nos resultados da campanha militar se devia ao fato dos homens do exército sentirem-se invencíveis. Outra novidade foi a criação de uma unidade “auxiliar” especialmente montada para apanhar os feridos enquanto o sacerdote avançava; os líderes do partido diziam acreditavam num tratamento justo aos prisioneiros de guerra, especialmente por causa da comunidade internacional.
Finalmente aconteceu, eles encontraram um dos acampamentos do adversário. Ao entrarem, o religioso percebeu que havia um altar improvisado no centro do local e, chocado, constatou que seus antigos conterrâneos tinham trocado de fé. Um objeto feito de ramos e galhos que grosseiramente simulava a forma humana jazia embebido de sangue no altar. Pedaços de corpos ao redor adornavam a divindade pagã. O detalhe é que estes restos mortais eram em sua maioria de crianças e mulheres. Em seu íntimo, o religioso sabia que só poderia ser aquela mudança a explicar o modo insano dos inimigos combaterem desdenhando a própria Morte. Questionado pelos subalternos o religioso disse que aquilo não significava nada e que deveriam continuar lutando. Não funcionou. Uma animosidade imediata surgiu entre seus homens para com os inimigos. Agora a guerra não parecia mais uma questão meramente política. O outro lado havia ousado desafiar Deus.
Conforme avançavam, tanto a Bala Santa quanto outra unidades encontravam novos altares repletos de sangue e com eles a mesma divindade banhada em sangue e rodeada de corpos.. Logo os boatos chegaram aos comandantes do exército e, pouco a pouco, mesmo os que não se importavam em fazer prisioneiros começaram a questionar os métodos do sacerdote. A maioria dos soldados e oficiais começou a ficar incomodada com a captura de prisioneiros. Aqueles que antes ajoelhavam para o sacerdote em sua passagem agora lhe cuspiam. Veladamente cresceu a opinião de que pagãos como aqueles a morte era pouco. Os próprios subalternos da unidade Bala Santa já não admiravam a miraculosa capacidade do sacerdote. Por isso, eles passaram a fazer questão de tomar parte do combate, ao invés de deixar tudo com seu líder como antes. Com isso aumentou o número de mortos de ambos os lados.
Inevitavelmente alguns prisioneiros eram recolhidos na frente de batalha, mas quase sempre, poucos deles chegavam vivos à base do exército do partido. Boatos também surgiram de que mesmo os prisioneiros capturados à semanas viam sendo secretamente mortos à noite. Mas ainda que ninguém percebesse a maior mudança de todas ocorreu no íntimo do sacerdote; sua fé na providência divina antes inabalável já era atacada por lapsos de dúvida. Não tinha ele sentido um sorriso maléfico antes de receber o sinal? Talvez em sua arrogância de se achar capaz de intervir no livre arbítrio humano ele tenha sido enganado por algum demônio, ou pela divindade pagã da floresta, que se passava por Deus.
O comandante do exército que tanto louvou o dom do religioso advertiu-o para que não tivesse piedade com aqueles demônios; de acordo com sua orientação todos os prisioneiros deveriam ser mortos! Aparentemente a ordem foi passada aos soldados também, pois no primeiro embate após a conversa, o sacerdote viu seu grupo massacrar os inimigos que capturava sem piedade; agora ambos os grupos tinham se igualado em barbárie.
O servo de Deus acredita que aquilo culpa era toda dele: havia sido enganado e por causa disso mais mortes que as necessárias estavam ocorrendo. Na noite seguinte quando voltou ao alojamento trancou-se em seu quarto. O criador não o perdoaria por sua arrogância e ingenuidade. Sabia-se condenado. Suas ações dali em diante pouco importavam e já havia decidido tomar a única decisão possível: eliminar a própria consciência. Posicionou o fuzil que tanta dor lhe trouxera e sentiu o frio. Sim. Frio, esta seria sua última sensação. Fosse o proveniente da arma encostada no céu da boca ou aquele do suor que escoria por suas axila, o frio era tudo o que teria. E, ainda que um ferimento à bala fosse quente, conforme diziam, quando uma estourou-lhe o crânio, suas terminações nervosas já não funcionavam para verificar tal crença. Em sua loucura também não havia ouvido o comandante ordenar-lhe que abrisse a porta. Talvez o religioso até repensasse a ideia de ter sido abandonado por seu Deus. Afinal, o velho oficial tinha vindo advertir-lo novamente só que dessa vez teria dito que o sacerdote fora longe demais: se não bastasse ter poupado centenas de inimigos, todos eles estavam acordando de seu coma plenamente curados!

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Abaixo a Matemática



Sei que vivemos numa era na qual somente uma minoria, os especialistas, tem a prerrogativa de opinar sobre questões relevantes. A nós os leigos, resta apenas acreditar no que diz tal minoria; entendamos a mensagem ou não. Entretanto, encorajado pelo vinho de cinco reais comprado com uma das parcelas do bolsa família, resolvi insubordinar-me contra a ditatura que me proibi opinar sobre o quê não entendo.

Por certo meu protesto será considerado um ato desesperado de um ser que desconhece o posto que lhe cabe. Especialmente porque resolvi manifestar minha insatisfação contra que aquela que é a mais arcana das especialidades, a Matemática. Bem, arcana ao menos para uma mente incapaz de entender a diferença entre holístico e integral.

Dito isso, revelo meu guia nessa empreitada: uma memória de causar inveja no mais bem dotado dos paquidermes. Pois bem, o registro mais significativo sob meu poder é o que afirmava ser a ciência dos números “a base para o entendimento das leis que regem o universo conhecido”. Exagerando a hipérbole, minha professora dizia que ao encontrarmos seres extraterrestres nos comunicaríamos com eles por meio da Matemática!

Daí que o maior uso dos números é no convencimento de que vivemos no melhor dos mundos. Veja só, quando uma nova epidemia assola o planeta os especialistas em matemática dizem: “não temam, em 99,9% dos pacientes essa doença não apresenta sequelas, as poucas mortes foram fatalidades”. Já quando um acidente aéreo vem ressuscitar nossa desconfiança natural quanto a tirar os pés do chão dentro de uma caixa que pesa milhares de quilos, eles proclamam: “voar é o meio de transporte mais seguro do mundo, as chances de acidentes são de menos de uma em tantos milhões”.

Felizmente fui salvo da prepotência dos números por uma classe de homens de inestimável saber obtido na escola da vida, os políticos. Nossos estimados representantes preferem acreditar naquilo que vai no coração, pois sabem que nada de bom surge dos números, pelo contrário. Sim, enquanto os especialistas tentam nos convencer que a probabilidade de ficarmos doentes é baixíssima, logo que sentem que podem estar enfermos, os políticos partem para o melhor e mais próximo hospital a fim de se tratarem. Por outro lado, quando um avião de uma companhia aérea qualquer cai por falta de manutenção, as aeronaves públicas à disposição dos políticos são prontamente revisadas.

Obviamente minha confiança nos políticos não se deu modo instântaneo; antes de a luz se fazer presente, a oposição estes e os especialistas me deixou confuso. Em que deveria confiar? Foi então que, mais uma vez, minha memória me indicou a saída do labirinto. Me apossei da solução de um grande homem que também passou por uma crise semelhante em relação à verdade e disse: penso, logo existo. Então pensei: quais serias as probabilidades de eu não ser um completo imbecil caso a Matemática estivesse certa e os políticos errados? Como definitivamente não tenho nem uma fração de bobo, conclui que o único resultado possível era o de que a Matemática estava errada! Isso mesmo, repito: errada!

Não é à toa que se diz que todo consenso é burro! Afinal, uma pesquisa recente demonstrou que profissão mais desprezível do mundo é a de político. Prefiro acreditar que esses mal avaliados senhores são profissionais mais devotados até que os bombeiros, eleitos como queridinhos da população mundial.

Enfim, por tudo isso quero que se juntem a mim no movimento de minha autoria batizado de “abaixo a Matemática”. Façamos como nossos visionários políticos que já entenderam a moral do velho ditado “existem mentirosos, malditos mentirosos e estatísticos”.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A vila dos Fiéis




Naquela sexta-feira uma enorme agitação me despertou; a cidade toda estava à minha porta e no comando do espetáculo papai, o delegado do lugar. O motivo da confusão era a Vila dos Fiéis, cidade minúscula a doze quilômetros, cujos habitantes seguiam uma religião desconhecida e eram muito reservados.

Entre os poucos contatos que mantinham com o mundo exterior estavam as visitas do doutor Medonça aos enfermos. Acontece que naquela manhã, o médico encontrara todos os habitantes da vila paralisados; ninguém tinha morrido, mas nada que já fora vivo era capaz de se mover. Foi questão de instantes para que alguém dissesse que aquilo era um castigo de Deus e se qualquer um saísse da vila, a praga recairia sobre nossa própria cidade.

Discretamente apanhei minha moto e sai em disparada para a Vila dos Fiéis antes que chegassem lá para isolá-la. Ao entrar no lugar, passei a procurar pela garota que amava em segredo, tal era o sigilo que nem Julia conhecia meus sentimentos.

Quando a encontrei, meu primeiro pensamento foi levá-la para minha casa, mas tive medo do que aqueles malucos poderiam fazer com ela. Apanhei seu corpo inerte, levei-a até um sofá e resolvi esperar.

O sábado veio tomar lugar da sexta e Julia e os outros não apresentaram qualquer mudança; sua paralisia era tal não reparei sequer que alguém tenha feito suas necessidades nas roupas; toda sua fisiologia estava paralisada. Tão pouco meu pai e os seus apareceram.

No domingo pela manhã, acordei assustado com um enorme estrondo e ao abrir os olhos, Julia sorria para mim com uma expressão de surpressa. Toda sua cidade tinha voltado ao normal; pedindo desculpas a ela e seus familiares prometi que voltaria para explicar tudo e parti.

Quando cheguei, descobri que um terremoto engolira minha cidade com todos seus moradores.

Ídolo


Antes

Estimados, irmãos. Espero que quando nos encontrarem essa mensagem os ajude a entender o motivo de tão temerária atitude. Por mais que tentássemos, eu e minha parceira, não fomos capazes de viver nesse mundo. Então, nossa falha para com vocês é dupla: a partida sem aviso e a incapacidade de nos estabelecermos aqui, tal como todos vocês desejavam.

O fato, meus caros, é que neste exato momento meu tempo se exaure; no início, a degeneração celular só podia ser detectada por meios de testes laboratoriais, mas, de um mês para cá, o processo se tornou tão evidente que mal é possível realizar atividades banais em meio à dor e a dificuldade de coordenar os músculos desse corpo.

Também contribui para meu desespero o fato de minha companheira se encontrar num estágio bem mais avançado da patologia, seja por qual for a causa. Apenas eventualmente sua razão decide se manifestar e quando o faz, é para cobrar o cumprimento do pacto que fizemos quando da terrível descorberta: o de praticar o suicídio. Embora isso não fosse novidade para ela quando saudável, agora em seus momentos de lucidez, tenho de lembrar-lhe que, sem a devida preparação, sem algo para preservar nossas essências, suicidar-se significaria estar perdido por toda a eternidade. Claro, meus esforços são inúteis, finda minha explicação ela já tornou a ser sequestrada pela loucura da doença.

Ainda que não acreditemos nas coisas não científicas, meus irmãos, ao menos hoje, no último dia em que permaneceremos vivos, ela decidiu não interromper seu descanso, concedendo-me o tempo necessário aos ajustes finais. Seria o acaso? Sim, hoje deve ser o dia derradeiro pois mesmo que a doença nos permitisse mais alguns momentos, os primitivos das cavernas nos dizimariam em represária ao que fizemos a seus dois companheiros; hoje é noite sem lua.

Não preciso tê-los observado por longos períodos para saber que nessas noites algo inexplicável parece aumentar-lhes a coragem. Não estou por acaso sentido semelhante força, mesmo nesse corpo degenerado? Ao contrário dos ataques anteriores, no que está para acontecer daqui a algumas horas, não teremos condições de repelir os primitivos. Concluo aqui minha mensagem a vocês. Adeus, meus irmãos, e até breve.

- Ah, olá, como se sente? Acabei de transferir os dados da última mensagem à rocha calcária e não percebi que tinha se levantado. Você me deve obediência, portanto, é meu desejo que volte a descansar até que tudo esteja pronto.

_ Temos que fazê-lo agora, a dor...é insuportável...

_ Ouça, minha cara, falta pouco, talvez duas, quem sabe, uma hora para podermos nos desfazer dessa tortura sem riscos. Só preciso acabar de preparar a rocha.

_ Agora, por favor...

_ Paciência, a pedra já está pronta para receber energia, mas ainda não pode emitir um sinal rastreável. Além disso, tenho de tratá-la para que não seja danificada ou tudo será em vão.

_ Temos de fazê-lo, você prometeu...

_ Chega de disc...ei, por favor, largue a arma. Tente raciocinar, não...arghhhhh...

_ Não se preocupe, comandante, agora você pode descansar. Não tente estancar o sangue desse corpo, morra. Venha...ahhhh, já sinto sua essência vibrando na rocha. Estou indo lhe encontrar...

Pouco depois

Só um dos homídios foi bravo o bastante para se aproximar dos corpos deformados e ensanguentados de seus dois irmãos desaparecidos há meses. Talvez por seu papel na hierarquia da tribo, aquele bravo tenha sentido que a estranha pedra, diferente de todas que já vira, o estava chamando...

Hoje

_ Professor, muito obrigado por nos conceder essa entrevista.

_ É um prazer recebê-los em nosso museu. Pode me chamar de Abel.

_ Bem, Abel, não tenho dúvida que, em relação ao acervo do museu, a maior curiosidade de meus leitores é sobre o ídolo pré-histórico. Segundo se diz, a razão dele nunca ter sido exposto antes, apesar de ter sido descoberto há mais de duzentos anos, se deve aos estranhos fatos a ele relacionados. Coisas como liberar lágrimas de sangue, sons e vibrações estariam entre os fatos testemunhados pelos pesquisadores que tiveram acesso à peça. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

_ Minha, jovem. Crer em tais coisas, talvez fosse sensato para nossos antepassados de trinta mil anos atrás. Afinal, eles esculpiram o ídolo justamente por serem supersticiosos. Mas hoje, o máximo que posso dizer sobre tais crenças: absurdo!

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Barbeiro



Roseana Pacheco estava curiosa. Em dois anos como psicológica da polícia era a primeira vez que pediam sua colaboração numa situação como aquela; invariavelmente os brucutus preferiam entrar e fuzilar os bandidos, se os reféns escapassem, tanto melhor.

Veio a seqüência de fatos inusitados . No local, já haviam lhe reservado uma vaga para o carro. Seu chefe, comandante do grupo de operações especiais, que até então nunca se dignara a cumprimentá-la, veio em sua direção como um cachorrinho abandonado em casa por todo um dia.

O superior informou-lhe ser ela a melhor opção para lidar com o caso já que se tratava de um evidente episódio de loucura: um homem exigia que seu habitual barbeiro devolvesse todo o cabelo que já lhe cortara! Roseana sabia que a natureza de um crime, fosse ela derivada de desajustes psicológicos ou qualquer outra coisa, nunca foi motivo para conter a tropa, então veio a teve a resposta. O “louco” não era outro senão Otávio Ribeiro, empresário respeitado em todo o país; seu nome e fortuna trouxeram consigo aquilo que nenhum pé-rapado conseguiria: centenas de câmeras de televisão acompanhando cada passo da polícia. Roseana conteve o riso ao descobrir o motivo de estar sendo tratada com tanta exceção.

Assim, de acordo com as gentis palavras do chefe a situação tinha tudo para colocar a polícia numa grande “merda” e isso não era nada bom especialmente porque as eleições estaduais ocorreriam em duas semanas. Natural pois que o governador e candidato à reeleição o tivesse intimado a solucionar o episódio de modo pacífico. Concluindo sua exposição o comandante disse que não estava impressionado por todos a considerarem uma menina prodígio ou por ela ter sido a primeira colocada do estado no concurso da polícia. Aquela seria a verdadeira oportunidade de provar que sua contratação tinha sido de alguma valia para o departamento.

Por meio de um megafone discutiu-se com o empresário a possibilidade de um negociador ser enviado à casa. Seria uma policial desarmada e pronta para antender à suas reivindicações. Intransigente e confuso de início, o agressor acabou respondendo aos gritos que a mulher poderia entrar, pois ele também queria acabar logo com aquilo. Não desejava ferir ninguém, apenas ter sua vida de volta.

Enquanto era preparada para entrar, a moça foi advertida por um colega para que não se deixasse enganar pelas boas intenções do empresário; para dar um toque de excentricidade ao evento, além da arma de fogo onipresente em casos como aquele, ele tinha um isqueiro com o qual ameaçava incendiar a barbearia.

Algum tempo depois a mulher foi autorizada a entrar na barbearia, e assim que o fez, o empresário que estava oculto atrás da porta, empurrou-a. Em seguida, bastante sem jeito, tentou revistá-la. O insucesso em encontrar qualquer tipo de arma, ou mesmo o ponto de rádio que a mulher trazia sob o capacete, tranqüilizou-o um pouco.

Mesmo assim, em sua mão, o isqueiro assemelhava-se a um objeto empunhado por um paciente com Parkinson avançado; a pistola tinha-a na cintura. Seu rosto pálido e sem cor apresentava várias perfurações com o diâmetro de uma queimadura de cigarro nas bochechas e entre os olhos; sem dúvida sinais de auto-flagelação, pensou a recém-chegada.

O lugar era surpreendentemente pequeno e só comportava uma cadeira de barbeiro na qual um homem já idoso estava amarrado com fita adesiva; no mais, uma porta parecia levar a outro cômodo. Acima da cabeça do prisioneiro, um recipiente tinha sido preso ao teto e furado para que seu conteúdo, gasolina, pudesse vazar aos poucos banhando o dono da barbearia.

_ Então? – gritou o empresário retirando Roseana de sua inspeção mental. Peça, convença-o logo! Não é para isso que você está aqui?

_ Convencer de quê, senhor Otávio?

_ Não tente ganhar tempo comigo, não sou idiota! – respondeu-lhe apontando o isqueiro em direção ao barbeiro. Eles já explicaram tudo!

_ Desculpe, não foi essa minha intenção. Está bem? Só me explique um pouco melhor, por favor. Lá fora eles me disseram apenas que o senhor queria seus cabelos de volta...

Então, com o olhar perdido entre as cenas de suas memórias, Otávio Ribeiro passou a recapitular os acontecimentos como se o fizesse para si mesmo. Em seu delírio, o ”monstro”, cujo nome “Augustinho″ o empresário se recusava a nomear, deveria devolver-lhe a vitalidade. Narrava que começara a freqüentar o estabelecimento por este funcionar à noite o que era perfeito para seus horários de homem ocupadíssimo.

O barbeiro gostava de contar que tinha uma clientela bastante grande composta de pessoas “muito ocupadas” assim como Otávio Ribeiro. Por coincidência, o empresário nunca encontrou outro cliente lá, supôs que fosse devido ao agendamento de horários. De qualquer modo, tornou-se frequentador assíduo retornando sem falta a cada quinze dias.

A partir daí, sem nenhuma explicação passou a sentir-se muito fraco e a envelhecer. No começo não associou as mudanças físicas às visitas periódicas ao monstro, mas aos poucos notou que nunca se lembrava de nada que ocorria enquanto cortava o cabelo; sabia que chegava ao salão vazio e recuperava a consciência apenas em casa, com eles cortados e um pouco mais brancos. Sem mencionar o cansaço e estranhas feridas no rosto e entre os olhos.

Enquanto Otávio Ribeiro desfiava suas fantasias, o nervosismo da psicóloga atingiu ápice. A boca do homem dava testemunho de que ele estava fora de si e por experiência ela sabia a inutilidade de argumentar com alguém tão dominando pelo irreal; tinha de se acalmar e aproveitar a distração dele para enganá-lo.

Um dia – continuava – sua intuição o fez perceber que tudo aquilo era devido ao barbeiro: ele estava sugando sua vida! Hoje, estava ali para tê-la de volta; felizmente ainda conseguia pensar um pouco e invadiu o lugar durante o dia, afinal, somente durante o sono, aquele monstro se encontrava vulnerável.

Pedindo que se acalmasse ela disse que iria pedir ao senhor Augustinho que lhe devolvesse os cabelos. Ao se aproximar do desventurado barbeiro, a psicóloga percebeu que o empresário parecia ainda mais nervoso e vacilante. Na realidade, ele parecia apavorado em manter-se próximo à sua vítima.

Aproximando-se lado esquerdo de Augustinho ela sussurrou-lhe ao ouvido:

_ Não se preocupe, vamos sair daqui! Aonde está o lixo com os restos de cabelo?

A resposta foram murmúrios initeligíveis, por certo os maus tratos recebidos tinham lhe confundido a mente, concluiu a moça. Enquanto Augustinho balbuciava sua novena indecifrável, ela teve a impressão que ele tentava lamber-lhe o rosto. Insistindo em sua pergunta a psicóloga teve a impressão de ouvir a palavra “não”.

“Que tipo de barbearia não tem algum resto de cabelo?” – pensou.

Pelo menos ela conseguiu subtrair um tesoura do velho sem que Otávio percebesse. Sem a ajuda do barbeiro, decidiu mudar de tática:

_ Senhor, Otávio, me ouça. Os cabelos estão no fundo da barbearia. Preciso do barbeiro para que ele me mostre o lugar onde se encontram.

_ Que tipo de idiota você pensa que eu sou? Você vai, ele fica.

Satisfeita, Roseana passou pela porta no fundo da barbearia, descobrindo que ela dava acesso a um anexo que servia de moradia para seu Augustinho.

Pouco depois ela retorna com uma sacola de plástico branca com diversos tufos de cabelo bem negro em seu interior. Tentando demonstrar sinceridade apresenta seu achado a Otávio Ribeiro.

Ainda que evidentemente satisfeito, ela foi questionada quanto ao o resto. Afinal, segundo ele, durante aqueles últimos meses seu cabelo fora cortado diversas vezes. Com uma desenvoltura que desconhecia ter, disse que o restante não importava; bastava uma pequena quantidade do cabelo perdido para restituir a energia do dono. Não era verdade que em filmes de magia negra um único fio era capaz de afetar a pessoa? No confuso cérebro de Otávio Ribeiro tal argumento pareceu dotado de uma lógica inequívoca.

Então, o seqüestrador deu à psicóloga a oportunidade de realizar o mais ousado movimento da noite. Questionada quanto ao que era preciso para que sua vitalidade fosse restituída por aqueles cabelos, a moça respondeu que apenas quem roubou-a poderia devolvê-la: Augustinho.

Otávio Ribeiro afastou-se bruscamente para o canto oposto da sala enquanto aos berros dizia que sob hipótese alguma o monstro seria solto; ele era muito perigoso. A psicóloga tentou acalmar o empresário dizendo que a vítima não passava de um senhor franzino e assustado; incapaz de fazer mal. O cada vez mais assustado empresário disse que aquela era a intenção do predador: fazer com que acreditassem que ele fosse frágil e indefeso para roubar-lhes a vida.

Indiferente às imprecações do empresário, a mulher aproximou-se das costas do barbeiro e tocou-lhe os ombros com ambas as mãos. No outro canto do cômodo o seqüestrador lhe implorava que não fizesse aquilo porque o monstro atacaria. Ousando ainda mais, ela envolveu por completo o velho encostando o próprio rosto ao dele; desesperado, Otávio Ribeiro evitava olhar para o barbeiro e gritava como se estivesse sofrendo a mais dolorosa das torturas.

Aproveitando o desespero do empresário e tentando evitar as investidas de Augustinho, que teimava em querer lamber-lhe o rosto, ela usou a tesoura pela segunda vez.

Quando baixou os olhos e viu o barbeiro com as mãos desamarradas a poucos metros de si, Otávio Ribeiro passou a amaldiçoá-lo a toda voz. Curiosamente, a pistola continuava em sua cintura, ele parecia crer que só o fogo era capaz de lidar com o monstro posto que o isqueiro estava apontando em direção ao velho que continuava avançando.

Temendo o pior, a psicóloga havia se posicionado na frente de seu Augustinho tentando barrar-lhe a caminhada. Ainda que a mulher tivesse os dois braços contra o peito do velho e as pernas estendidas para manter-se no lugar, a força do barbeiro era algo anormal já que ele não precisava inclinar-se nem mesmo um centímetro buscando uma alavanca mais favorável a fim de se opor à psicóloga, uma mulher grande de mais de setenta quilos.

A cada centímetro que Augustinho a empurrava para mais perto do empresário, Roseana imaginava sentir as chamas se espalhando pelo cômodo, mas ao invés de atear fogo ao local, Otávio Ribeiro encolhia-se mais e mais em seu canto e lamentava:

_ Eu não devia ter concordado com a sua entrada...agora não posso acabar com tudo...

Pelo parecer dela, o empresário ainda parecia ser capaz de distinguir que o assassínio de qualquer outro que não o barbeiro era algo condenável. A alternativa era arriscar a vida por seu palpite.

Em meio à crescente confusão, ela ouvia o constante questionamento do comandante se aquele era o momento para invadir o lugar; em meio a gritaria de Otávio e aos resmungos inconpreensivos de Augustinho ela respondia pelo rádio: “ainda não!”.

Por fim, quando só o corpo da psicóloga separava o empresário de sua vítima, o desespero de Otávio Ribeiro foi substituído por uma patética submissão. Às lágrimas, ele implorava para que Roseana Pacheco fosse embora e lhe deixasse dar fim ao monstro para que a criatura não pudesse mais vitimar ninguém.

Cada vez com mais dificuldade para conter o velho que fazia questão de se aproximar do empresário, Roseana Pacheco prometeu a Otávio Ribeiro que se ele lhe entregasse o isqueiro e a pistola, ela cuidaria pessoalmente para que o barbeiro não atacasse mais ninguém.

A situação já se encaminhava para o seu melhor desfecho quando Augustinho, talvez dando vazão ao medo e frustração experimentados nas últimas horas, decidiu agredir o empresário. Deixando o isqueiro cair e aparentemente esquecido de portar uma pistola, o seqüestrador lutava com selvageria para manter o barbeiro atrás da psicóloga. Já esta, era empurrada de um lado pelo empresário e de outro pelo idoso que ora tentava desferir socos no adversário, ora lamber-lhe o rosto ferido e pálido. Em meio à luta, Roseana era atingida por ambos. Prestes a perder a consciência ela conseguiu dar a ordem pelo rádio: “agora, invada agora”...

Alguns dias depois, a psicóloga foi elogiada em público por seu comandante. Segundo ele, todos do grupo deveriam admirar sua astúcia que lhe permitiu cortar o próprio cabelo para enganar o seqüestrador e concluir a operação sem baixas. Para satisfação da moça, este foi coerente ao próprio conselho e passou a cumprimentá-la todas as manhãs.

Quanto aos personagens do evento que promoveu-a em celebridade, soube que Augustinho se recuperou bem e, menos de um mês depois, fechou o salão para viver com familiares no interior. Já para Otávio Ribeiro, as coisas foram mais complicadas: não retornou ao trabalho acabando recolhido a um luxuoso sanatório.

Segundo o parecer da doutora Roseana Pacheco, o excesso de trabalho levou o homem a se desconectar da vida e das transformações físicas decorrentes do próprio envelhecimento. Ela suponha que os momentos quinzenais de relaxamento na barbearia permitiram que emergisse do torpor. Infelizmente, a retomada de consciência ocorreu numa versão concentrada e violenta de crise da meia-idade sendo o barbeiro o objeto de sua frustração.

Por tudo que havia descoberto, ela acreditava que poderia ajudar Otávio Ribeiro a experimentar um retorno ao convívio social. Assim, pediu uma autorização a seus parentes para poder visitá-lo. Organizava suas folgas na polícia para ir ao sanatório de quinze em quinze dias, ocasiões nas quais o empresário costumava ter suas crises. Mas seria um trabalho árduo. A condição mental do paciente era tão delicada que ele definhava continuamente e ainda se mutilava. O pior era que as crises quinzenais eclodiam devido às visitas à barbearia das instituição.

O parecer da doutora era de que, melhor que interromper os cortes, o empresário deveria continuar tendo a oportunidade de enfrentar seus medos; só assim melhoraria. Por isso, de costume ela chegava um pouco antes que Otávio Ribeiro cortasse o cabelo numa tentativa de tentar fazê-lo entender que ninguém lhe faria mal; muito mesmo o barbeiro da instituição psiquiátrica; sem confessar a doutora o achava um jovem profissional até bastante interessante.

Infelizmente, a visita de hoje corria o risco de perder o propósito, o trânsito estava pior do que ela imaginara e não se podia fazer muita coisa com o empresário após seu cabelo ter sido cortado; ele perdia o controle pro completo e precisa inclusive ser amarrado para não mutilar o próprio rosto.

Longe dali, na barbearia de uma certa instituição psiquiátrica um envelhecido empresário imobilizado por uma camisa de força recebia um conselho:

_ Pare de gritar, meu caro. Depois de tanto tempo, você já devia estar acostumado ao maior apreciador de seu delicioso tipo O negativo.


quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Noite no campo




Até bem pouco tempo, eu tinha certeza de ter nascido na Alemanha errada; a atual juventude alemã me enojava. Me incomodava particularmente a crença de alguns jovens de que nós, os legítimos alemães, havíamos causado grande sofrimento a judeus, ciganos e outras aberrações. Segundo eles, milhões de almas ainda hoje, estariam sofrendo nos lugares de seus martírios originais.

Foi por causa desse tipo de ideia, que há alguns meses eu quase quebrei a cara de uns almofadinhas no colégio e só não o fiz, porque alguém propôs algo mais interessante. Conforme disseram, caso eu estivesse certo e as vítimas do nazismo não fossem gente e muito menos tivessem alma, uma noite num antigo campo de concentração considerado assombrado, não teria maiores consequências. Por outro lado, se os almofadinhas tivessem razão, eu haveria de encontrar alguns espíritos por lá e teria de me desculpar.


Casado o dinheiro da aposta, apanhei minha bicicleta e cobri os cinco quilômetros de Munique até Dachau numa noite chuvosa. Não foi difícil entrar no antigo campo pois as autoridades responsáveis por sua administração, não se dignavam a investir em segurança acreditando que ninguém macularia o lugar. De acordo com o combinado, apanhei meu colchonete e rumei para um dos chuveiros a fim de passar a noite na sala de morte.

Surpreendido, devo confessar que no início assustei-me com um bando que vi aos berros na porta da câmara de gás, mas logo veio a decepção; tinham tido uma ideia melhor que a minha. As suásticas e insígnias nazistas nas roupas dos agressores não davam margem de dúvida quanto ao que acreditavam; no chão um bando de garotos com cor e aparência erradas recebia chutes enquanto era verbalmente agredida. Assim que me viram, aqueles que eu supunha serem alemãos dignos, sorriram e me convidaram para beber cerveja; atrás deles, no chão do lado de fora da câmara, ficou um bando de farapos ensanguentados.

Quando estava prestes a entrar na sala, meu pé foi retido com muita força por um dos rapazes agredidos; ele me implora “não vá, não vá”. Na hora não pude acreditar que o maldito pudesse ter a ousadia de me pedir ajuda e terminei aquilo com um pontapé na boca do infeliz.

Entrei na câmara rindo e meu novos colegas me fizeram um brinde. Foi quando as portas se fecharam e minhas vias áreas começaram a ser corroídas por uma espessa fumaça no mesmo instante que minha carne descolava-se dos ossos como se incinerada por um fogo invisível. Em minha agonia, eu era incapaz de distinguir quais eram de minha autoria e quais gritos vinham de meus companheiros que agora não passavam de esqueletos agonizantes. Então quando acreditei que uma dor capaz de descontrolar meus esfincteres não pudesse ficar mais intensa, percebi que estava enganado. Próximo do fim, um coro de orações me trouxe um fio de esperança; eram os jovens espancados que, do outro lado da porta, proferiam preces a Deus em meu favor.

Devo ter desmaiado pois na manhã seguinte fui encontrado pelos seguranças de Dachau e levado a um pronto socorro. Contudo, após a primeira noite lá, acabaram me trazendo para esse hospital psiquiátrico. Graças aos resultados normais de meus exames, nenhum dos médicos acreditou que meus gritos de dor e desespero tivessem origem somática; a loucura ocupou o lugar de um diagnóstico desconhecido. Então, desde a noite em Dachau peço duas coisas a Deus: perdão por não ter escutado aquela alma que me suplicou para não entrar na câmara de gás e para que ela e suas companheiras venham aliviar com suas orações, a purgação que passei a compartilhar, noite após noite, com os antigos soldados do campo de Dachau.