sábado, 10 de julho de 2010

Compromisso



A máquina do tempo existe e está em cada um de nós, seres humanos. Embora não nos possibilite viajar pelas épocas, é essa máquina do tempo individual quem marca os ritmos de nossa vida: quando a temperatura corporal está mais alta, quando temos sono, o pico de liberação de nossos hormônios e até os horários do dia em que estamos mais predispostos a nascer. Enfim, enquanto a máquina mantiver a precisão de nossos ritmos biológicos, esse será o tempo da saúde. Por extensão, a doença representa a quebra da máquina, seja pela decorrente perda da ritmicidade biológica, seja pelo momento em que se anuncia. A doença e sua mais dramática conseqüência, a morte, são visitantes inesperados. Por isso, a rotina de um pronto socorro, é atemporal; a invariabilidade resume-se à chegada sem fim de objetos chamados pacientes.

Era madrugada de sábado para domingo no pronto socorro de São Miguel Paulista e o doutor Sérgio Ferreira ainda tinha doze horas de plantão pela frente. Como de costume, às três da madrugada, o médico veterano preparava-se par dar um cochilo, mas foi interrompido pela chegada de uma viatura da PM. O sargento, conhecido seu, chamou-lhe a um canto e recomendou:

_ Doutor, faz um tempinho antes de atender esse daí. Este é coisa sem conserto.

Atendendo à recomendação, doutor Sérgio constatou uma providencial falta de pessoal para estancar a hemorragia dos ferimentos à bala recebidos pelo suposto meliante. Providenciado o atraso e dada a recomendação de que, assim que possível, o rapaz fosse levado à geladeira, o doutor tomou o rumo da sala onde gozaria de seu merecido descanso.

Antes de atingir seu objetivo, porém, foi interrompido pela segunda vez. Agora era um homem de aproximadamente quarenta anos que o segurava pelo braço enquanto se contorcia e balbucia coisas incompreensíveis numa maca:

_ ...arte de curar...da caridade..da ciência...

Chamando uma enfermeira próxima o doutor quis saber:

_ O que tem esse ai?


_ Não sei doutor, ele chegou hoje de manhã.


_ Tem plano de saúde?


_ Veio sem nenhum documento.


_ Quando der, manda para o raio-X, depois eu dou uma olhada.

Dada a ordem, não houve novas interrupções e o doutor pode finalmente dormir. Infelizmente para ele, não as duas horas de costume; um acidente de carro na avenida Marechal Tito obrigou uma das enfermeiras a solicitar sua ajuda. Sem alternativa, o médico foi receber os feridos. No corredor, o mesmo homem de antes insistia em seu palavreado sem sentido:

_ ...goze eu sempre a minha vida...

Irritado, doutor Sérgio explodiu:

_ Cale a boca infeliz!

Ao consultar a enfermeira que o acordara sobre o resultado do raio-X daquele homem, foi informado que não havia resultado; o aparelho de raio-X quebrara. Questionado pela moça se deveria pedir a remoção do paciente para outra instalação onde o exame pudesse ser executado, doutor Sérgio insistiu na tese que o homem haveria de agüentar. Afinal, alguém falando daquele jeito não poderia estar tão mal.

O restante do plantão correu sem novidades e às três e trinta da tarde, doutor Sérgio dirigiu-se à sua padaria predileta para quebrar o jejum; não suportava os lanches do PS. Depois de pedir algo, foi ao banheiro. Com os olhos fechados e o rosto cheio de sabonete sentiu uma pressão irresistível torcer-lhe o braço para trás.

_ Ouça – ordenou uma voz que passou a ler.

“Prometo que, ao exercer a arte de curar, mostrar-me-ei sempre fiel aos preceitos da honestidade, da caridade e da ciência. Penetrando no interior dos lares, meus olhos serão cegos, minha língua calará os segredos que me forem revelados, o que terei como preceito da honra. Nunca me servirei da minha profissão para corromper os costumes ou favorecer o crime. Seu eu cumprir este juramento com fidelidade, goze eu para sempre a minha vida e a minha arte com boa reputação entre os homens...”

_ Lembra-se disso? – questionou a voz.

Gaguejando, o médico respondeu que sim e que se tratava do conhecido juramento de Hipócrates.

Então, a voz advertiu:

_ Preste atenção, sua vida depende disso. O que está faltando?

Sem saber como aquela recordação ainda residia em sua memória o médico disparou:

_ ...se o infringir...ou dele afastar-me...suceda-me o contrário.

Cumprindo sua promessa, o dono da voz soltou o braço do médico. Este por sua vez, sentiu o medo dar lugar a um desfalecimento molhado e quente. Algum tempo depois, um teste do pezinho foi encontrado na boca de um corpo, que ao ter a jugular cortada, estava ilhado pelo próprio sangue. Por sua vez, o paciente que não pôde fazer o raio-X, desapareceu.

Não faça a barba antes de jantar


Ele acordou faminto. Segundo suas contas, cerca de dezoito horas eram passadas desde a última vez que se alimentara; até então, nunca fora descuidado com suas necessidades fisiológicas, mas ainda não estava adaptado às mudanças recentes. Antes de qualquer coisa, precisa agüentar a fome um pouco mais e barbear-se para então poder sair; com aquela aparência seria difícil atrair uma companhia feminina para o jantar. Impossibilitado de usar um espelho, apanhou a navalha e foi removendo os pelos do rosto com a ajuda do tato. A combinação de mãos trêmulas pela falta de alimento com a lâmina afiada, produziu-lhe um corte superficial acima do pomo de Adão; enlouquecido pela visão do sangue, o vampiro recém-convertido rasgou a própria jugular na ânsia de alimentar-se e acabou num monte de cinzas.

Drenado


Quando ele estava realizando seu treinamento, sempre lhe diziam que entender as instruções era a diferença entre estar vivo ou morto. Durante alguns meses, ouviu centenas delas. Mas de quais iria efetivamente precisar em combate? Como, por definição, o acaso impossibilita preferências, tornou-se o soldado mais aplicado de seu regimento decorando todas.

E para quê tanta informação inútil? Do que valera aprender a operar tanques ou carros com metralhadoras de grande calibre? Foi meter-se numa guerra com um país esquecido por Deus e tão pouco urbanizado que quase setenta por cento da população vivem fora das cidades. Para ser mais preciso, em meio a uma selva, lugar de vegetação tão densa e inexplorada que praticamente nenhum veículo bélico é útil na frente de batalha. Por isso, ali, ao contrário do que aprendera nas simulações, não era possível destruir os inimigos pelo apertar de um botão. Não, era necessário estar frente a frente para matar ou morrer.

O mais engraçado é que só precisou tomar três tiros para aprender a coisa mais importante que precisava saber: não seja estúpido de voluntariar-se para uma guerra; especialmente quando se está de cara cheia. Só para confirmar a grande inutilidade de tudo o que aprendeu, o fato era que, se ele ainda respirava, isso se devia à desobediência ao que aprendera, principalmente quanto a não ser um covarde e continuar lutando. Caso não tivesse se apavorado quando seu pelotão foi emboscado, teria sido massacrado com os companheiros. Ao menos não tinha sido o único, o pobre diabo que agora ele arrastava também não quisera uma medalha póstuma e tentara fugir. Justiça seja feita, o treinamento militar tinha sua utilidade. Graças a ele, sabia do que em breve iria morrer. Afinal, segundo as estatísticas de guerra “em cinqüenta por cento dos casos, os combatentes não morrem devido a seus ferimentos, mas em conseqüência da hemorragia causada por eles”.

O sargento que lhe transmitiu tal informação não engrossou essa estatística; ele foi cortado ao meio por explosivos tendo morte instantânea. Ou teria sido seu tenente quem lhe falou sobre ela? Já não tinha certeza, não era só seu sangue que escorria por todos os lados, sua memória também se esvaia.

E quanto ao companheiro que carregava? Muito provavelmente, o soldado Navarro já estava morto. O mais sensato seria deixá-lo inconsciente em meio à selva e economizar as forças que lhe restavam. Mas para que se preocupar com isso? Seus ferimentos quase não queimavam mais e seus membros pareciam impulsioná-los sem a necessidade de comando; a morte estava gentilmente assumindo o controle. Melhor assim. Que ambos morressem logo pois se fossem pegos com vida, seriam torturados sabe-se lá por quanto tempo. Além do mais, devia confessar que arrastava Navarro por um motivo egoísta, não queria morrer sozinho em meio aquele inferno no qual a umidade fazia quarenta graus centígrados parecerem sessenta.

Depois de andar mais alguns metros, ele ficou em dúvida quanto ao que tinha aprendido no treinamento sobre miragens. Elas só aconteciam em desertos? Se não, era bem provável que ele tivesse encontrado uma legítima miragem de selva. Entretanto, diferente de suas primas de desertos, aquela não simulava um oásis e sim uma cabana velha e descuidada.

Como a miragem teimava em permanecer a sua frente após alguns segundos, ele desconfiou que aquela era uma cabana de verdade. Chegou a esboçar um sorriso de alegria, mas de repente o pouco raciocínio que lhe restava advertiu que os moradores do lugar certamente eram seus inimigos; fossem eles civis ou militares. Sem dúvida, eles adorariam atrasar ao máximo o que o iminente choque hemorrágico faria com ele para assim poder torturá-lo. Diante da dúvida entre permanecer na selva ou investigar a habitação, resolveu terminar a vida da maneira como a até então a vivera, isto é, de modo imprudente. Ele avançou.

A cabana ficava a alguns centímetros do chão e se aproximando mais perto dela, notou que seu estado de conservação sugeria que estivesse abandonada. Depositou seu companheiro com cuidado no chão e em seguida, com medo de que se desfizessem a seus pés, subiu os degraus que levavam à porta de entrada. Quando estava prestes a abri-la, ouviu um barulho do lado de dentro. Alarmado pelo que poderia sair dali, puxou sua quarenta e cinco e antes que pudesse esboçar qualquer reação, uma idosa com quase metade do seu tamanho e as feições típicas do povo inimigo, apareceu.

“Ah, como são pequenos os desgraçados” – pensou.
Ergueu a pistola com dificuldade e quando ia estourar a cabeça da mulher, ela reagiu com um sorriso sem dentes. Surpreso, o soldado retribuiu o gesto de forma instintiva e desmaiou.

Ao acordar, seu corpo nu estava banhado de suor. Tentou sentar-se, mas seus músculos pareciam não ter confiança na própria força. Percebendo estar confinado à esteira sobre a qual se encontrava, começou a gritar por auxílio. Não demorou para que a mesma idosa aparecesse no aposento, mais uma vez sorrindo mas também falando coisas esquisitas; quem sabe aquele fosse algum dialeto da língua inimiga usado naquelas paragens. Nenhuma das palavras básicas que conhecia no idioma de seus adversários funcionou. Independente do que ela tentava dizer, a mulher estava visivelmente preocupada em não permitir que o soldado se levantasse e seus gestos assemelhavam-se a súplicas para que ele permanecesse deitado.

Mais por incapacitação do que por obediência, ele continuou onde estava enquanto ela limpava seu corpo com um pano umedecido. À medida que a velha seguia seu ritual, ele começou a lembrar-se da condição na qual chegara ali. Em sua opinião, a única coisa que lhe parecia certa é que ele deveria estar morto, mas evidentemente não estava. Quando o pano começou a ser friccionado contra seu tórax, uma das partes do seu corpo a receber tiros de fuzil, não sentiu dor. Aquilo só seria possível se o ferimento estivesse em avançado estado de regeneração. Curioso para ver a condição da lesão, tentou erguer a cabeça sendo mais uma vez facilmente demovido de seu intento pelo braço da mulher que, com cuidado, devolveu sua cabeça à esteira. A mesma ausência de dor ocorreu quando ela higienizou as outras partes alvejadas de seu corpo.

Nos dias seguintes, com uma paciência incomum, a mulher dedicou-se a manter o corpo do soldado livre de suores e sujeira. Depois de inúmeros esforços para comunicar-se com sua enfermeira ele desistiu de tentar e as perguntas passaram a acumular-se em sua cabeça.

Como aquela mulher ignorante tinha conseguido retirar as balas de seu corpo? Aquela era uma tarefa que exigia recursos intelectuais e materiais; ele não acreditava que a velha os possuísse. Mais intrigante: qual tinha sido o prodígio utilizado para evitar sua morte por perda de sangue? Uma transfusão seria impossível. Duvidava que ela fosse capaz de preparar soro; talvez tivesse infundido água de coco em suas veias, mas não havia coqueiros naquela selva. Quanto mais se questionava, menos entendia porque continuava vivo. Entretanto, uma coisa ele tinha de admitir, a mulher inimiga lhe salvara a vida.

Dias depois se lembrou de outra coisa que tinha aprendido com seus instrutores: um indivíduo acamado perde praticamente um quarto de sua condição cardiorrespiratória em duas semanas. Ele ao contrário, sentia-se melhor a cada amanhecer. Com certeza aquela era mais uma peça numa coleção de informações sem importância. Passados mais alguns dias ele conseguia sentar-se e a sensibilidade das pernas tinha voltado; quanto às feridas provocadas pelos tiros, ele não as encontrou mais.

Foi quando ele viu o menino pela primeira vez; era uma diminuta criatura para alguém com cerca de 10 ou 12 anos e que o observava pela janela da cabana. Após inspecionar o soldado por algum tempo, o pequeno visitante desapareceu. Nos dias que se seguiram, o soldado ficou tentando adivinhar que tipo de relacionamento o menino tinha com a velha. Ele fez uma nova tentativa de comunicar-se com a mulher a fim de esclarecer a dúvida, mas como de costume, ela apenas sorrira em resposta. Para dificultar as coisas, o menino tinha o incômodo hábito de aparecer quando ela não estava por perto.

Cerca de três semanas depois de ter chegado, o soldado acordou e deu-se conta que suas forças estavam completamente recuperadas. Vestiu uma roupa de cor estranha e saiu da cabana para encontrar a velha. Sua salvadora não estava por perto e ao procurá-la ao redor da construção, percebeu o quanto a cabana estava em meio à selva. As árvores pareciam ceder de má vontade o espaço necessário ao local, como se tivessem sido obrigadas! Isso o fez lembrar-se do soldado Navarro. Pelo visto a velha não tinha conseguido repetir o milagre com o coitado. Se ele tivesse sobrevivido já o teria visto. Onde ele estaria enterrado? Não havia nenhuma cova à vista na área livre de plantas. Era difícil de acreditar que a anã tenha sido capaz de arrastar para longe um homem com quase dois metros de altura e mais de cem quilos.

O soldado também percebeu que não sentia mais a raiva que acreditou um dia sentir pelos inimigos. Por outro lado, o verde-oliva de seu antigo uniforme já não era sua cor predileta. Tudo pesado, seu desejo de lutar parecia tão morto quanto seus companheiros de pelotão. A verdade era que ele não sentia nada em relação a nenhum dos lados em disputa. Era curioso, mas as coisas mais parecidas com um sentimento que trazia dentro de si eram a simpatia pela velha e uma estranha atração por um garoto que não vira mais que algumas vezes na última semana.

Armado com seu novo estado de espírito ele decidiu permanecer ali, ajudando no que fosse possível. Nos primeiros dias da nova resolução tentou aumentar a área em volta da cabana removendo o excesso de vegetação, o que segundo acreditava, tornaria o lugar menos sombrio. Mas o solo da região devia ser particularmente fértil pois as plantas voltavam a crescer numa velocidade anormal.

Numa manhã, a velha que pouco fora vista desde que ele resolveu lutar em vão contra a selva, aproximou-se segurando algo. Ela escancarou a boca banguela e lhe indicou uma erva que até então ele nunca tinha visto. Não foi difícil concluir que a mulher desejava que ele procurasse por aquela planta. O soldado ficou satisfeito por receber uma designação mais útil e certamente com efeito mais duradouro quanto às necessidades da idosa. Tendo lhe entregue amostra do vegetal, ela foi embora. Isso não o surpreendeu pois ele estava se acostumando com os sumiços da anfitriã. De fato, ele achava até graça por parecer uma criança abandonada em casa à própria sorte enquanto os pais ocupados saiam para trabalhar.

Já que ao redor da casa não havia indícios do vegetal misterioso, ele decidiu-se aventurar pela selva a fim de cumprir sua nova missão. Conforme se afastava da cabana sentia mais e mais a presença do garoto. Não precisa vê-lo para saber, simplesmente sabia que ele estava ali; era como se o menino compartilhasse com ele o senso de cinestesia.

Após um bom tempo, embrenhado na vegetação ele deu de frente com um grupo de seis soldados inimigos. Semanas atrás, um encontro daquela natureza o teria paralisado de medo, mas ele não sentiu nada; seu sangue permanecia surpreendentemente frio. Ao avistá-lo, os seis adotaram a óbvia reação de apontar-lhe os fuzis. Mas, por algum motivo, cinco deles hesitaram. Enquanto o sexto, aquele que parecia ser o mais jovem, destravou sua arma e só não disparou porque recebeu uma violenta bofetada na cara. Além da agressão física, o chefe do grupo que parecia muito nervoso, desferiu vários impropérios contra o desavisado rapaz. O soldado teve a impressão de poder divisar um medo intenso nas pupilas dilatadas do líder enquanto ele advertia o jovem. De súbito, o homem interrompeu seu repertório de admoestações e fez um sinal para que todos fossem embora.

Ao vê-los partir, o soldado descobriu-se aliviado, não por si. Sem notar, ele temera que o bando pudesse fazer mal ao garoto que estava próximo. Quando tomava o rumo de volta à da cabana, seu pequeno companheiro apareceu e começou a caminhar a seu lado. Eles permaneceram assim todo o tempo, apenas sorrindo um para o outro, sem nada dizer. Essa proximidade deu ao soldado um senso de completude que ele jamais experimentara.

Quando anoiteceu, o soldado sonhou que homens, mulheres e crianças gritavam desesperadas enquanto eram atacados por algo que ele não pôde identificar. O episódio foi tão real que ele podia sentir o sangue quente das vítimas espirrando a cada golpe que elas sofriam. Acordou com a sensação aflitiva de que o garoto pudesse estar em perigo.

Desesperado para saber se o menino continuava vivo, entrou na selva que, de noite era ainda mais sombria, sem prestar atenção para que lado estava indo. Acabou encontrando uma vila cujas casas eram similares àquelas de seu sonho. Sem temer qualquer reação adversa por parte dos moradores, ele prosseguiu. Mas ninguém iria agredi-lo ali pois a vila havia sido abandonada. Seus antigos moradores, contudo, não desapareceram sem deixar vestígios. Pelo contrário, cães disputavam à dentadas inúmeras peças escuras e gelatinizadas do sangue de seus antigos donos. Sua ansiedade aumentou ao pensar que talvez aquela fosse a vila do menino e que um pouco daquele sangue pudesse ser dele.

Decidiu que retornaria à cabana e obrigaria, de um jeito ou de outro, a velha a contar-lhe quem era o menino e onde poderia ser encontrado. A menos de trezentos metros da velha habitação, o soldado teve a impressão de ver um brilho se movendo na noite escura da selva; o inconfundível assovio de uma bala de fuzil foi a maneira encontrada por quem estava lá de confirmar sua presença. O silvo do primeiro tiro foi desaparecendo à medida que o pedaço de chumbo afastou-se cortando o ar. Já o som do segundo disparo teve um fim abafado pelo choque do projétil com o fêmur do soldado. Como herança desse encontro produziu-se um terceiro som, esse, o do osso cujo esfacelamento levou o soldado ao chão.

A próxima coisa que o soldado ouviu foram risadas e frases debochadas em sua conhecida língua materna; aqueles que o alvejavam eram homens de seu próprio país. Ele tentou avisar sobre sua identidade aos agressores ocultados pela vegetação, mas talvez suas roupas ou a noite os estivessem confundindo ou quem sabe ainda, aquilo era apenas o resultado da burocrática rotina de assassinar gente sem fazer perguntas. O fato, contudo, era que o grupo continuava atirando.

Enquanto outros projéteis o atingiam, o soldado percebeu não havia sangue no local do primeiro tiro; um líquido negro e viscoso escorria pelo buraco, mas o fez apenas por alguns centímetros, para logo retornar de onde viera. Em sua volta, a sustância arrastou consigo os fragmentos de osso expostos e lacrou o buraco provocado pela bala. Então ele percebeu que o mesmo estava acontecendo com cada novo ferimento que lhe era infligido; nenhum deles sangrava! O deslumbramento pela descoberta foi interrompido pelo impacto que destroçou o osso frontal de sua cabeça.

No entorpecimento que se seguiu, o soldado viu o seu jovem amigo armado e acompanhando um grupo de soldados inimigos. Em seguida, o garoto estava de joelhos enquanto um bando de militares, do mesmo exército ao qual o soldado pertencera, executava um a um seus acompanhantes adultos. Por fim, o militar colocou a pistola na boca do garoto e atirou. Quando a avó dele chegou, a mesma mulher que salvara o soldado, sangue e pedaços de miolos estavam aderidos à cabeça de seu neto. Antes de apanhar o corpo minúsculo, ela amaldiçoou os companheiros mortos do menino por o terem condenado a uma morte tão prematura, e partiu.

Então era aquilo, o garoto estava morto e fora seu maldito exército o responsável por tudo. A mulher tinha sido capaz de salvar a vida de um soldado do lado inimigo e sua paga foi a execução do neto por esse mesmo inimigo. No instante seguinte, ele ergueu-se e nem todas as balas de seus agressores foram suficientes para evitar que fossem destroçados.

Ao chegar na cabana, mais uma vez não encontrou a velha. Não sabia como iria consolá-la pela perda do neto. Então, ouviu-a há alguma distância, vegetação adentro. Partiu em seu encontro e descobriu que o som vinha de uma clareira em meio à selva. Era curioso que ele ainda não tivesse encontrado aquele lugar a tão pouca distância da cabana.

Ao aproximar-se, a luz produzida por inúmeras tochas, lhe permitiu ver dezenas de corpos nus pendurados de cabeça para baixo. Eram de todas as idades e como animais, tinham sido degolados. Seu sangue escorria por uma calha até um altar cujo centro era ocupado por um ídolo negro. Presidindo a cena, estava a velha que agora não parecia nem pequena nem ignorante. Ela não se importou ao perceber que o soldado a estava observando. Pelo contrário, ela sorriu e lançou no fogo um pouco da estranha erva que o soldado em vão procurara. A fumaça exalada do curioso incenso apossou-se de sua mente e ele teve sua segunda visão. Fora ele quem lhe trouxera aquelas pessoas, todas elas. Eram os habitantes da vila que a pouco o soldado descobrira. O sangue disputado pelos cachorros era daqueles que ele fora obrigado a machucar por terem resistido.

Simultaneamente ao retorno das lembranças do soldado, a velha foi até uma pilha de ossos e apanhou um fêmur. A placa de identificação junto às demais partes do esqueleto, deixava claro que elas pertenciam ao soldado Navarro. O que outrora servira de suporte às partes moles do corpo do falecido fora convertido num recipiente oco.

Com aquele osso longo da perna em mãos, a mulher aumentou a intensidade do conto e despejou parte do conteúdo sobre uma cova recente. Em instantes, uma pequena mão surgiu da terra e logo, um corpo inteiro tinha emergido, era o garoto.

Naquele instante, as peças finais se encaixaram. Não foram os militares que o soldado acabara de trucidar os responsáveis pela morte do menino; há muito outros soldados o tinham matado. A criança estava morta muito antes de o soldado ser foi acolhido pela velha. Por outro lado, seu sangue tinha sido a chave para a ressurreição da criança. O mesmo sangue que fora drenado em troca da misteriosa substância negra e que agora estava depositado nos ossos do falecido Navarro. Quanto às vítimas, elas não passavam de um fim para amenizar a sede infinita de um Deus que exigia sua parte no pacto obsceno e imoral de reviver o neto da idosa.

Tudo se resumia a um engodo e naquela guerra ele não era nada mais que uma marionete servindo a interesses alheios à sua vontade. Do alto de sua estupidez, compreendeu que só havia uma coisa pela qual valia à pena lutar naquele inferno: o descanso que fora negado a ele e ao garoto. O fim do pesadelo começava com a morte da velha e a recuperação de seu sangue. Ele acreditava que enquanto o líquido estivesse armazenado nos ossos do soldado Navarro, não haveria descanso para si. Munido apenas de sua vontade, avançou contra a feiticeira com a intenção dar-lhe a morte que ela própria negara a ele. Impassível, a velha continuava a cantar e à medida que o soldado se aproximava dava a ele o que sempre dera, seu sorriso incompleto.

No momento seguinte, tudo se tornou claro e quente ao extremo, tanto que o soldado sentiu sua carne começar a derreter sobre os ossos. Luz e calor foram substituídos por um estrondo que por sua vez, deu lugar a um deslocamento de ar potente o suficiente para arremessar seu corpo a centenas de metros antes dele mergulhar na inconsciência.

O soldado foi despertado pelos raios solares que agora chegavam em abundância ao solo uma vez que não havia mais árvores para bloqueá-los; a selva desaparecera numa grande extensão em torno de onde o soldado estava. Agora, tudo era devastação e não havia mais um único corpo no lugar que antes fora a clareira, sem dúvida, todos foram evaporados pelo calor de uma bomba incendiária produzia por seus compatriotas. Que comandante seria idiota o bastante para dar tal ordem com suas tropas na região? Nem a placa de identificação do soldado Navarro, a única coisa ali capaz de resistir ao calor produzido pelo artefato quântico, estava por perto. Provavelmente, ela tinha sido lançada a quilômetros. O soldado sabia que a velha e o menino tinham desaparecido para sempre; ao menos um deles estava em paz. Quanto ao corpo do soldado, exatamente como acontecera antes, ele estava completamente regenerado.

Quanto a sua situação, ele concluiu que estivera errado. A destruição dos ossos do soldado Navarro não era a reposta para seu problema, afinal, tudo tinha sido calcinado e ele ainda continuava de pé. Não importava o quanto demorasse ele haveria de encontrar uma saída. Tempo era algo que não lhe faltava, enquanto a substância negra estivesse preenchendo seu sistema circulatório, a eternidade estaria do seu lado.

Enquanto isso, há milhares de quilômetros dali, no país do soldado, os únicos restos mortais até então capazes de resistiram ao calor de uma bomba incendiária, foram depositados no mausoléu dos heróis de guerra com todas as honras militares. A inexplicável permanência dos ossos do soldado Fernando Navarro só confirmava a bravura e resistência dos homens daquele país e haveria de inspirar muitos jovens a defenderem aquela gloriosa pátria de seus inimigos.

Material Biológico




Perseguida por uma viatura da PM, a saveiro subia a rua Botucatu numa velocidade que mal permitia distinguir o que estava escrito em suas laterais: cuidado material biológico. Na esquina com a Borges Lagoa, o motorista tentou uma curva não aprovada pela lei da inércia e capotou várias vezes. Entre um giro e outro, diversos fracos contendo os mais curiosos humores humanos foram arremessados para fora do veículo; a maioria espatifou-se na rua, mas um frasco em particular, foi esfacelar-se dentro de uma cafeteria, espargindo seu conteúdo sobre os ocupantes de duas mesas.

Apesar da gravidade do acidente, o motorista ileso, ainda tentou escapulir pela janela do carro tombado. Contudo, acabou contido pelos policiais que o perseguiam. Preocupado com efeito daquele estranho material sobre seus clientes, o dono da cafeteria convidou os dois homens a se lavarem no banheiro do estabelecimento.

O entrosamento surgido entre os que compartilham problemas mútuos, alimentou a conversa entre Sandro Araújo e Ivan Medeiros. Ivan mostrava-se preocupado com as conseqüências da exposição forçada ao material biológico, Sandro, ao contrário, assegurava-lhe que a rápida remoção evitaria qualquer dano. Ao trocarem um aperto de mão, Sandro se deteve alguns segundos olhando a aparência do braço de Ivan.

_ Causa uma má impressão, não é?


_ Me desculpe – respondeu Sandro – não é isso. É que sou médico e, por incrível que pareça, não tinha percebido.


_ Médico! Que tipo de médico?


_ Ivan me desculpe, mas eu estou muito atrasado, preciso ir.


_ Claro, foi um prazer.

Sandro subiu a Botucatu de cabeça baixa para que nenhum dos vários policiais militares reconhecesse o colega tenente e o parasse para conversar. O médico mal podia acreditar que depois de tanto trabalho para conseguir uma entrevista com o chefe da cardiologia da UNIFESP, iria tomar a decisão a seguir. Pegou o celular, deu a primeira desculpa que lhe veio em mente à secretária do tal médico dizendo que não compareceria à entrevista. Numa segunda ligação, avisou ao quartel que estaria disponível para voar à tarde. Sandro acabara de abortar um plano que vinha considerando há três anos: deixar de ser médico socorrista do Águia Dourada da polícia militar e tornar-se residente em cardiologia na UNIFESP.

Pouco depois de Sandro sair cafeteria, Ivan seguiu pelo mesmo caminho até chegar a unidade de hemodiálise da rua Pedro de Toledo. Ele passaria às próximas horas, ligado por seu antebraço deformado, à máquina que mantinha sua vida. Isso, desde que uma hipertensão desconhecida e descontrolada comprometera-lhe os rins. Essa sessão de hemodiálise, contudo, seria a primeira na qual ele tinha uma importante tarefa a fazer: planejar como ressuscitar a publicação de seu livro de contos, abortada há quatro anos. Foi nessa época que recebeu a notícia de seus rins e a publicação de uma obra chamada Perspectivas lhe pareceu uma cruel ironia. Embora tivesse escolhido o título quando se imaginava totalmente saudável, depois do diagnóstico de falência renal crônica, tal nome lhe pareceu de extremo mau gosto; quando o material já estava para ir à gráfica, Ivan ligou e sem maiores esclarecimentos cancelou tudo. Afinal, que perspectivas tinha alguém cuja vida dependia de máquinas e de um transplante que poderia nunca ocorrer graças ao seu tipo sanguíneo raro?

Agora, por algum motivo, ele se considerava um completo tolo por ter abortado a publicação; sua condição física de alguma forma não parecia mais uma boa razão para isso. Talvez tenha sido o medo do acidente ou quem sabe o fato de conhecer alguém como Sandro, tão otimista e seguro de si, pensou. Minutos depois, já ligado à máquina, Ivan começou a gastar os créditos de seu celular na tentativa de localizar as pessoas capazes de transformarem sua mais recente decisão em realidade.

Naquela quarta-feira, o caminhão-pipa da prefeitura economizou sua carga, uma chuva torrencial, daquelas que só os paulistanos conhecem, lavou a rua Botucatu arrastando todos os resquícios de material biológico.

Enquanto Ivan esperava que a máquina o liberasse, imaginava como voltaria para casa com o caos que se instalaria na cidade. Sem alternativa, ele assistia distraído à TV que estava sintonizada num dos famosos vespertinos policiais. De repente, um caso em particular despertou seu interesse. A cena mostrava uma mulher em cima do teto de um carro que estava sendo arrastado pela enxurrada. O áudio transmitia a conversa do jornalista com uma amiga que estava no carro com a mulher, mas conseguira escapar. Segundo as informações, a mulher sobre o carro, cujo nome era Fátima Oliveira, lutava não por uma, mas por duas vidas; a dela e de seu bebê de três meses. Ivan teve de ir embora antes do desfecho da história, mas soube no dia seguinte, pelo jornal, que a mulher fora salva, contudo, ela abortara seu bebê.

Nas semanas seguintes, Ivan passou horas tentando marcar uma reunião na editora que havia se comprometido com seu livro Perspectivas. As evasivas do editor responsável deixavam claro que ele não tinha esquecido a desfeita e Ivan não lhe tirava a razão. Depois de muita insistência, o editor cedeu e Ivan contou-lhe a história da forma mais direta e sincera que pôde. Confrontado com a notícia do problema sério pelo qual Ivan estava passando, o coração do velho editor amoleceu um pouco e ele mostrou-se mais receptivo. Por fim, ele prometeu que iria considerar a possibilidade de reassumir o projeto.

Dias depois Ivan recebeu uma das ligações mais esperadas de sua vida, talvez tão esperada quanto à notícia de que receberia um rim: seu livro seria publicado. Durante a noite de lançamento, algumas semanas depois, Ivan convidou todos os conhecidos e amigos que pôde para a ocasião. Como prêmio, recebeu uma pilha de exemplares para autografar; ele estava exatamente nesta tarefa quando mais um exemplar foi posto à mesa.

_ Por favor, escreva para Fátima, Fátima Oliveira.

Sem conseguir atribuir o nome a um conhecido, Ivan ergueu o rosto:

_ Ah, Olá...

_ Quer que eu anote para você não esquecer?

_ Não, não precisa. Como soube do lançamento?

_ Uma amiga. Então, tá. Mais tarde eu o pego.

_ Como?

_ O livro.


_ Claro...desculpe...olha, sei que essa é velha, mas você não me parece estranha.

_ Tem muita gente parecida por ai, Ivan. Até.

Ivan passou quase todo o resto do lançamento pensando em algo especial para escrever no exemplar de Fátima. Mas a inspiração parecia tratá-lo como um doente contagioso. De vez em quando, a moça dirigia seu olhar para a mesa onde Ivan estava autografando, mas não veio apanhar sua cópia até o fim da festa.

_ Chegou a hora, preciso ir.

_ Aqui está – respondeu Ivan.

Enquanto a moça abria o livro para conferir o que Ivan lhe escrevera, o coração deste batia tão rápido quanto o de um beija-flor. Fátima fechou o livro e disse boa noite de um modo mais formal do que Ivan gostaria. Contudo, dois dias depois ela ligou para o telefone que Ivan anotara no livro e eles decidiram almoçar juntos. Durante o encontro, Ivan descobriu porque Fátima lhe era familiar; ela era a moça que fora salva na enchente. Ele também ficou sabendo que o pai do filho que ela abortara, seu ex-namorado, a abandonou enquanto ela ainda estava hospitalizada devido ao incidente.

O almoçou foi o primeiro de vários e o somatório desses encontros resultou em convites de casamentos.

O único desejo de Fátima para a cerimônia era de que o homem que lhe salvara a vida aceitasse o convite para ser seu padrinho. Ela tentou várias vezes conseguir o telefone de seu salvador, mas no emprego dele a informação considerada sigilosa, foi negada. Quando estava prestes a desistir, Ivan fez uma piada dizendo que talvez o pessoal da emissora de TV soubesse o telefone, já que tudo aconteceu ao vivo. E foi assim que Fátima conseguiu o telefone de Sandro Araújo. Quando os noivos foram formalizar o convite, o médico socorrista quase desistiu ao ver quem era o noivo; seu companheiro de acidente, Ivan Medeiros. Convencido de que não se tratava de uma brincadeira, mas de uma curiosa coincidência, Sandro aceitou ser padrinho de Fátima.

No dia em que, Fernanda, a primeira filha do casal nasceu, a chuva, iniciada de madrugada, cedeu lugar ao Sol pouco antes do parto. Não só Fátima e Ivan interpretaram a mudança no tempo como um bom augúrio; longe dali um homem fez o mesmo. Enquanto os raios de Sol da tarde perfuravam a grossa camada de nuvens, o motorista da saveiro era solto. Depois de passar vários meses na cela de uma delegacia, nenhuma das acusações contra ele foi confirmada. O que começou como uma denúncia anônima de tráfico de drogas demonstrou-se nada mais que o transporte de restos de cirurgias de uma clínica de aborto clandestina.

O Gênio da Garrafa



Era a quarta vez que o rapaz lia a frase e nem assim era capaz de recordar-se dela. Durante toda a semana tinha dormido pouco para obter os dados necessários à confecção de um relatório. Como era esperado, tanto esforço teve um resultado paradoxal, ele não estava conseguindo utilizar tais dados para cumprir a tarefa encomendada por seu chefe. Se o cansaço o vencesse estaria na rua. Então, entre uma pescada e outra, um minúsculo ser transparente surgiu a sua frente.

_ Quem é você? – perguntou o rapaz assustado.

_ Sou o gênio da garrafa.

_ Garrafa? Que garrafa?

_ Aquela garrafa ali, oras.

_ Sei. Então eu tenho direito a três pedidos.

_ Gênios de garrafa só concedem um.

_ Que seja; quero que você materialize um relatório para mim.

_ Não posso. Não dá para criar coisas do nada.

_ Como não? Os gênios fazem isso o tempo todo nas histórias.

_ Aqueles são gênios de mentira. Gênios de verdade sabem que as coisas não podem ser criadas a partir do nada.

_ Hã?

_ Nunca ouviu algo do tipo “a energia não pode ser criada nem destruída, só transformada”?

_ Há?

_ Deixa para lá. Quer minha ajuda ou não? – perguntou o irritado ser de fumaça.

_ Você acabou de dizer que não pode fazer meu relatório!

_ Mas eu posso ajudar você a fazê-lo.

_ Como?

_ Usando seu próprio potencial.

_ Não entendi.

_ Certo, eu vou te dar um desconto pelo sono. Posso fazer com que você fique mais atento e que sua fadiga desapareça. Daí você mesmo faz o relatório.

_ Mais isso não é mágica?

_ Claro que não!

_ E como você vai fazer isso?

_ Eu não vou fazer nada, você vai.

_ Então me diga senhor gênio, o que eu preciso fazer para que você possa me ajudar?

_ Beba todo café que está na minha garrafa térmica.

Identificação


Talvez, para algumas pessoas, os dias fossem todos diferentes. Para outras, eles provavelmente seriam cópias carbono. Porém, desde aquele filme, Sal percebeu que para ele, os dias podiam ser de duas espécies: fáceis ou difíceis.

A descoberta apresentou-se numa quarta-feira na qual o adolescente faltara à escola para pegar a sessão das 11 da manhã; mais barata que as demais. À tarde, quando chegou em casa, Sal foi abordado por seu padrasto que lhe lembrou pela vigésima vez na semana o quão ele era imprestavél e que, no futuro, não seria nada melhor que seu falecido pai: um alcoólatra que morrera na via pública. Então, operou-se o milagre. Contrariando sua passividade congênita, o rapaz disse ao padrasto o que lhe veio à mente. Não foi preciso ofender ou ameaçar aquela coisa que ocupara a cama de seu pai, mas de alguma forma sua recém-adquirida segurança fez com que o velho se calasse desconcertado.

Trancando em seu quarto, Sal relembrava a cena e a cada repetição do quadro crescia uma certeza: aquele surto de atitude não provinha dele. Claro que em seu âmago o maior desejo do rapaz era ter uma linha de conduta só sua, afinal, ele não tinha dúvida de que assim teria sempre uma resposta para os problemas impostos pela vida. Mas Sal sabia-se desprovido de atitude. De onde, então, teria surgido a erupção de coragem que acabara de demonstrar? Apesar de pouco crível, a única conclusão era que ele herdara aquilo de um dos personagens do filme que assistira pela manhã.

O novo remédio, contudo, era paliativo. À medida que os dias passaram sua dose extra de atitude desvaneceu-se. Sal começou a ter dificuldades de lembrar quais seriam as reações típicas do personagem que clonara. A solução foi voltar à matinê para assistir ao mesmo filme e, assim, obter a recarga de atitude sem a qual, percebeu, seus dias tornavam-se difíceis de suportar. Para evitar o que já tinha acontecido, Sal decidiu anotar qual deveria ser o novo padrão comportamental em folhas de papel as quais carregaria consigo. Porém, quando pela segunda vez Sal já não podia lembrar-se das atitudes do personagem, as anotações não ajudaram. Diante de um confronto qualquer ou decisão a ser tomada, ele não conseguia transpor os conselhos registrados no papel para sua prática.

Disposto a descobrir o porquê dessa limitação em sua metodologia de obtenção de atitude, Sal começou a estudar as mudanças que as sessões de quarta-feira lhe impunham. O rapaz percebeu que o tempo de retenção das características de um dado personagem era proporcional à sua capacidade de visualizá-lo. Enquanto fechasse os olhos e ele estivesse lá de forma nítida, as atitudes permaneciam. Ironicamente, a mente de Sal parecia incapaz de manter o registro por muito tempo; logo ele que tinha uma excelente memória.

Outra coisa interessante é que o garoto também não descobriu o motivo de, diante dos diversos personagens de um filme, selecionar um em particular. O máximo que Sal progrediu em relação a esse aspecto foi tecer a hipótese de que talvez a escolha se desse pela identificação com o personagem; ainda que, na maioria das vezes, isso fosse totalmente inconsciente. Afinal, ele nem sempre absorvia as características do personagem de que mais tinha gostado no filme.

O pior, porém, foi detectar mais um problema a ser resolvido. Um dado filme não permanecia eternamente em cartaz. Dessa forma, quando entrava em contato com uma película diferente e seus novos personagens, Sal obtinha atitudes também diferentes. Não que o garoto tivesse preferência quanto a esse ou aquele conjunto de atitudes, de modo algum. Para ele o importante era ter alguma atitude. O inconveniente de mudar de personalidade de tempos em tempos é que isso causaria uma má impressão nas pessoas. Ser considerado um frouxo ou banana é uma coisa, mas louco, era algo sério.

Sal precisava aumentar o tempo de permanência das atitudes e dotá-las de um padrão. Obviamente, a resposta não estava nos filmes. Mesmo que ele elegesse uma determinada história em DVD, seria obrigado a assisti-la de tempos em tempos, por toda a vida. Além disso, se algo acontecesse à cópia depois de anos, não teria mais como “resgatar” seu conjunto de atitudes. Isso seria catastrófico para sua imagem depois de tê-la consolidado de uma determinada maneira por décadas. Ele não poderia construir sua identidade sobre base tão movediça.

Algum tempo depois, Sal estava desesperado por acreditar que seu dilema não tinha solução, então, da mesma forma que os filmes lhe deram o dom da atitude, eles mostraram como aprimorar o método de obtê-las. Aquela sessão fora igual a tantas outras e Sal poderia dizer o mesmo do filme. Entretanto, as atitudes herdadas naquela ocasião apresentaram uma validade excepcionalmente estendida. Ponderando sobre o ocorrido ele lembrou que algo no último personagem permitira sua visualização por mais tempo: uma tatuagem. Naquele instante, soube o que precisa fazer para obter atitudes por tempo indeterminado: bastava registrar em sua pele um símbolo que se identificasse com tais atitudes.

Pela primeira vez em meses, Sal faltou a uma matinê; naquele dia teria outro tipo de sessão, a de um estúdio de tatuagens. Claro que teve de aliviar a carteira de seu padrasto do dinheiro para realizar seu propósito, mas o velho lhe devia isso.

O que seu novo símbolo lhe cobrou? Horas entediantes de imobilidade, a dor da agulha perfurando a pele e dias sem Sol regados à pomada? Coisas muito pequenas se comparadas ao que a tatuagem lhe dera. Daí em diante seus dias tornaram-se fáceis em definitivo. Sal sempre tomava uma atitude diante das situações. Suas notas na escola melhoraram; seus colegas o respeitavam e até seu pai sobressalente parou de incomodá-lo. Enquanto olhasse diariamente para aquela marca, a atitude implícita nela estaria presente.

O casamento entre Sal e sua tatuagem permaneceu harmonioso até que ele passou a enxergar as limitações da parceira: nenhum símbolo poderia representar ou identificar-se com todas as atitudes necessárias para encarar a vida. Se quisesse ser mais completo, Sal precisaria de novas tatuagens. No começo ele relutou, achava que sua primogênita não receberia bem novas companheiras, mas a pressão de enxergar uma falha de caráter em cada espaço sem tinta de sua pele, sobrepujou seu temor.

Decidido, o adolescente arranjou um emprego de meio período após a escola a fim de obter os recursos inerentes à conquista de novas atitudes. Seus salários eram integralmente investidos nas tatuagens. Sal desenvolveu um método intuitivo para escolhê-las; apanhava o livro, fechava os olhos e sentia quais atitudes determinada tatuagem lhe evocavam. Não demorou para que não restassem mais espaços sobre suas vestimentas para ocultá-las. Superando o medo sobre o que pensariam de suas tatuagens, Sal iniciou o processo de imprimi-las onde todos pudessem vê-las; culminando com seu rosto.

O garoto não se importou quando o dono da empresa na qual estava trabalhando deu um desculpa qualquer para dispensá-lo. A reação de sua mãe e padrasto também não foi das melhores. E antes que um deles cumprisse a promessa de expulsá-lo, ele saiu de casa. Em troca de pequenos serviços no estúdio de tatuagens o proprietário deixou que ele dormisse nos fundos do estabelecimento. O rapaz não podia estar mais feliz; sempre que uma dúvida sobre a existência o acometia ele olhava no espelho e sentia-se seguro com suas dezenas de tatuagens.

Enquanto os dias de trabalho no estúdio continuavam fáceis, as noites de Sal começaram se tornar difíceis. As vozes de suas tatuagens adquiriram o perturbador hábito de visitá-lo durante o sono: cada uma delas dizendo qual era a melhor conduta a ser adotada em sua vida. Embora as noites mal dormidas comprometessem as forças do garoto sua juventude lhe permitia manter a rotina. Pelo menos até o dia em que começou a ouvir as vozes enquanto estava acordado. Sal tentou cantarolar, ouvir música no último volume e até conversar incessantemente com os colegas e clientes do estúdio, mas as tatuagens continuavam a lhe aconselhar.

Em dúvida sobre qual tatuagem ouvir, o comportamento de Sal começou a oscilar numa amplitude e freqüência incomuns. Suas atitudes em relação aos clientes do estúdio variavam entre a cordialidade e a agressão verbal extrema. Depois de inúmeras confusões o dono do lugar expulsou-o do trabalho/casa.

Sem local para ir e tendo apenas as vozes discordantes como companhia, Sal passou a mendigar e a dormir nas ruas. Nessa época, suas refeições passaram a depender de bons cidadãos que jogavam polpudos restos de comida no lixo. Por fim, os conselhos discordantes acabaram por paralisar até mesmos os comportamentos necessários à satisfação de suas necessidades mais básicas. Deixou-se abandonar deitado sob uma ponte, defecando e urinando nas roupas enquanto se alimentava do pouquíssimo tecido adiposo que lhe restava. Sua condição tornou-se de tal forma deplorável que os poucos sem-teto que insistiam que ele se alimentasse o abandonaram.

Depois de meses sem ter notícias do filho, a mãe de Sal recebeu um telefonema; precisavam que ela fosse até o instituto médico legal. Lá chegando ficou sabendo pelo legista de plantão que infelizmente seu filho fora encontrado morto nas ruas. Diante do desespero da esposa, o padrasto de Sal ofereceu-se para confirmar a identidade do corpo, mas foi informado de que isso não seria necessário; eles tinham certeza. Os dados da arcada dentária do rapaz batiam com os de um registro no cartório de pessoas naturais da cidade. Além disso, o legista confidenciou-lhe em particular que o reconhecimento não seria possível num corpo naquele estado: sem pele nenhuma.

Com relação ao lugar onde Sal foi encontrado, aos poucos ele foi sendo abandonado pelos sem-tetos da região. Aquele bando de bêbados e drogados jurava que os grafites e pichações dali insistiam em falar e mudar de forma por conta própria.

Memórias


Amanhecera e Luiz Peixoto tinha passado a noite acordado entre reflexões de ordem metafísica, nunca gostara delas, mas fora-lhe impossível parar de pensar naquilo: como alguém saberia que alcançou o propósito de sua existência? O exemplar da Nature, na cômoda ao lado, o levou a concluir que em seu caso, a resposta estava estampada na capa: cientista brasileiro vence o mal de Alzheimer. Dentro da revista, um artigo de várias páginas, coisa raríssima no periódico científico mais prestigiado do mundo, embasava sua conclusão.

Claro que aquelas páginas não traduziam as dificuldades e humilhações que enfrentara até chegar ali. Luiz duvidava que na última década, algum outro pesquisador tivesse mais apelidos jocosos que ele. Sem contar que, todos os projetos que submeteu às agências governamentais, em busca de auxílio financeiro, foram negados; não sem duras críticas à validade de seu trabalho. Em conseqüência, foi preciso financiar sua pesquisa com a fortuna deixada pelo pai.

Tudo isso, porque ele resolvera desafiar a máxima de Isaac Newton “Se vi mais longe, foi porque estava sobre os ombros de gigantes.” Pensando bem, sua ousadia tinha sido imensa, afinal, ele se negara a basear suas investigações em evidências que vinham sendo obtidas há mais de duzentos e cinqüenta anos, desde o século XXI. Já naqueles tempos, o paradigma dominante, era o de que a cura para várias doenças, a do mal de Alzheimer inclusive, residia no estudo das células-tronco. Desde então, cientistas de todo mundo dedicaram suas carreiras e trilhões de Iauns perseguindo essa história. Basicamente, no caso do mal de Alzheimer, os pesquisadores acreditavam que ao serem introduzidas no cérebro de uma pessoa, as células-tronco se converteriam em neurônios, substituindo assim, as células nervosas perdidas pelo paciente; fato que resultava na perda de memória característica da doença.

No entanto, com o passar dos anos, as triagens com células-tronco foram se mostrando menos e menos eficazes; até o pré-tratamento delas com compostos especiais, antes da inoculação no crânio, provara há décadas, ser ineficaz. Apesar disso, certamente por orgulho, os pesquisadores insistam no decadente paradigma das células-tronco.

Foi nesse contexto que, no ano de 2270, ele veio ao mundo. Alguns anos depois, se graduou em medicina, mas nunca exerceu a profissão; desde sempre soube que seu coração estava na pesquisa; nessa época, só não tinha certeza a qual área dedicar-se.

Graduado, as forças do acaso o levaram a conhecer um pesquisador cuja linha de pesquisa estava orientada para a morte celular. Assim, durante seu doutorado, descobrira que células submetidas a vários tipos de agressões, tais como radiação ou falta de oxigênio, apresentavam menor mortalidade quando o dano era imposto na presença de seu principal nutriente. Já doutor, pouco antes de montar seu próprio laboratório, um fato foi decisivo na escolha de sua futura linha de pesquisa; o diagnóstico de que sua mãe era portadora do mal de Alzheimer. Por isso, resolveu dedicar sua carreira à descoberta da cura para aquela doença.

Seus problemas de financiamento e descrédito começaram quando decidiu renegar o paradigma das células-tronco, usando os conhecimentos obtidos durante a pós-graduação na busca de um tratamento para o mal de Alzheimer. Sua hipótese de trabalho era bem simples. Uma vez que as células do cérebro humano, os neurônios, tinham um grande apetite pelo açúcar glicose, ele acreditava que pacientes de Alzheimer perderiam menos células nervosas caso essas tivessem muita glicose à disposição.


Seu primeiro desafio foi explicar aquele que aparentemente era o ponto fraco de sua hipótese. Há séculos, a comunidade científica sabia que o cérebro humano consome grandes quantidades de glicose, na realidade mais de cento e oitenta gramas por dia. Como sua hipótese poderia estar certa, se o cérebro dos pacientes com mal de Alzheimer desenvolvia a doença, apesar de consumir tanta glicose? Depois de alguns anos, suas investigações resolveram a contradição: a doença, de alguma forma, diminuía a capacidade dos neurônios consumirem glicose. Essa foi uma pequena vitória, mas fundamental para certificar a Luiz de que aquele era o caminho certo. A paranóia de que outros cientistas descobrissem a cura antes dele antagonizada pelo medo de que fossem rir ainda de seu trabalho, fez com que esses dados não fossem divulgados na época.

Vencida essa etapa, restava a enorme dificuldade de fazer com que as células do cérebro humano consumissem mais glicose do que normalmente faziam; infelizmente era impossível simplesmente injetá-la no crânio das pessoas. Assim, seguiram-se mais alguns anos de frustrações, até o dia que, enquanto tomava banho, Luiz teve a resposta que faltava: insulina.

Ele se lembrou de que esse hormônio, era o responsável por aumentar o consumo de glicose em vários tecidos corporais, mas não no cérebro, onde as células captavam a glicose sem necessidade de estímulo da insulina. Talvez, por isso mesmo, ninguém tivesse atinado para a idéia de Luiz: aumentar a quantidade de insulina no cérebro de pacientes. Se as células do cérebro desses indivíduos tivessem contato com quantidades aumentadas dessa substância, elas captariam mais glicose que o normal e, estariam protegidas de qualquer que fosse o fator que lhes induzia a morte.

O último obstáculo a ser vencido, era descobrir como aumentar a quantidade de insulina no cérebro, já que o sistema circulatório daquela região não permitia que quantidades elevadas entrassem ali. Mais uma vez o gênio de Luiz encontrou a solução. Após descrever as especificações necessárias a um conhecido do instituto de engenharia, este projetou o objeto de que precisava: uma sonda miniaturizada capaz de produzir insulina dentro do cérebro. De posse da sonda, bastou testá-la em camundongos geneticamente modificados para desenvolverem uma doença similar ao Alzheimer de humanos.

Encorajado pelos resultados, Luiz apresentou seus dados ao comitê de Ética da universidade e não demorou para que recebesse autorização de submeter pacientes humanos a seu procedimento. Nesse período, bastou pedir a colaboração de um brilhante e ganancioso neurocirurgião, para que as sondas fossem introduzidas no crânio dos doentes.

Como a insulina precisava ser liberada de tempos em tempos, a fim de que as células estivessem protegidas, ele pediu ao colega neurocirurgião que conectasse a sonda ao nervo óptico. No que considerou um toque de classe, Luiz programou a sonda para funcionar com estímulos de intensidade igual ou superiores às dos raios solares. Assim, toda vez que o olho do paciente fosse submetido à luminosidade, a sonda identificaria os impulsos do nervo e produziria o hormônio; dessa forma, cada dia traria uma nova esperança para os portadores da doença.

Em pouco tempo, as triagens demonstram que os resultados obtidos em camundongos eram reproduzidos em seres humanos. Curiosamente, um ponto realmente impressionante de seu método, era que ele funcionava independentemente das causas do Alzheimer, que continuavam desconhecidas no século XXIII; bastava que o doente tivesse um diagnóstico precoce e iniciasse o tratamento. Sem dúvida, a descoberta da cura de uma patologia antes que os mecanismos causadores da mesma fossem compreendidos, não era algo que ocorria todos os dias. Isso o colocava lado a lado de grandes cientistas como Alexandre Fleming, descobridor da penicilina e Sérgio Ferreira, o brasileiro que identificara a bradicinina. Certamente, se ele fosse um matemático, seria parabenizado pela eficácia de sua elegante e simples fórmula.

Clichês, à parte, Luiz não deixava de achar engraçado o fato de ele entraria para a História como o homem que impediu a progressão da perda de memória. Ironicamente, porém, para sua mãe, tudo aquilo chegara tarde demais, ela morrera anos antes em consequência do mal.

Enfim, se artigo que tinha à sua frente não revelava toda a dificuldade que tivera para publicá-lo, ele pelo menos, era um marco de uma nova era em sua carreira. Um tempo de glórias e a primeira delas, seria alcançada naquela noite, ao ser empossado como membro da Academia Brasileira de Ciências.

Mas ainda era de manhã e Luiz precisava cumprir um último compromisso: atender pela última vez, alguns dos primeiros pacientes que se submeterem ao seu procedimento. Levantou-se sem despertar a esposa; ela teria um dia difícil nos salões de beleza preparando-se para a grande festa. Tomou uma xícara de café preto e saiu em direção à universidade.

No portão central da cidade universitária, um dos guardas, aquele que Luiz tinha certeza de que não ia com sua cara, recebeu-o com um sorriso e permitiu sua entrada dispensando o ritual de apresentação de credenciais. Parecia que o sucesso de sua pesquisa começava a ecoar até entre os incapazes de compreender-lhes os ensinamentos esotéricos.

Por ser uma data especial, liberou Tereza, sua secretária e todos seus pós-doutores do compromisso de ir até o laboratório. Lá, deu uma rápida ajeitada na mesa de sua sala e ligou o computador enquanto esperava a chegada da primeira paciente, Ana O. Vasconcelos.

Dona Ana, uma mulher de 68 anos, tinha sido o caso mais avançado da doença a ser submetido ao seu método de tratamento. No início, ele hesitou em aceitá-la na pesquisa, a probabilidade de não haver melhorias era grande, e isso, só reforçaria a argumentação de seus detratores. Contudo, como sempre fazia, Luiz decidiu seguir sua intuição e o risco assumido, só tornou mais intensa sua vitória; a melhora de Ana tinha sido acima das expectativas, além de parar de perder a memória, ela passou a ter recordações nítidas dos períodos mais precoces de sua vida. Um verdadeiro milagre produzido por ele.

O toque do interfone da entrada do prédio o despertou de suas elucubrações, Dona Ana acabara de chegar. Liberando a trava da porta, Luiz a convidou a entrar. Em poucos segundos a velha mulher cruzou o laboratório chegando à sala do pesquisador que ficava nos fundos; lugar ideal para vigiar seus pós-doutores trabalhando.

_ Bom dia doutor.
_ Boa dia dona Ana. Como tem passado?
_ Estou ótima obrigada. Por que tudo aqui está tão quieto?
_ É que hoje dei folga para todo mundo, por causa da publicação da pesquisa de nosso grupo. Sabe?
_ Oh, não teria sido melhor eu vir outro dia?
_ Claro que não!. Tínhamos esse encontro agendado e fiz questão de mantê-lo.
_ É, pensando bem, acho que eu não poderia ter vindo em ocasião melhor.
_ Com certeza, além disso, não demoraremos muito pois nossa coleta de dados já está completa.
_ Então não faremos mais testes e exames?
_ Exato, minha intenção hoje é agradecê-la por ter sido tão generosa em participar de nosso estudo.
_ Mas que pena, doutor Joseph. Eu vim hoje especialmente para que me examinasse.

Luiz sentiu um calafrio percorrer seu corpo, dona Ana acabara de chamá-lo de Joseph. Seria possível que os efeitos de seu tratamento estavam falhando após dois anos? Não, era impossível; a ressonância magnética de seu cérebro, feita na última quarta-feira, bem como os questionários que lhe foram aplicados, demonstravam que a memória dela estava numa condição excepcional.

Contudo antes que pudesse questionar sua voluntária sobre o engano, ela sacou uma pistola calibre 7.65 mm de sua bolsa.

_ Dona Ana...tome cuidado...
_ Cale a boca, doutor Joseph.
_ Fique calma, meu nome não é Joseph. Sou Luiz, lembra-se?
_ Você acha que eu não sei disso, Joseph? Acho que é você quem não se lembra de nada, mas tudo bem, tanta coisa está diferente agora.

Em segundos, Luiz Peixoto estava banhado de suor e tinha certeza que o comportamento da mulher devia-se a um sério efeito colateral do tratamento. Era precisava desarmá-la. Mas como? Àquela distância, ninguém erraria um tiro, especialmente, aquela idosa que demonstrava uma destreza surpreendente no manejo da arma. Talvez fosse melhor insistir mais um pouco na conversa:

_ Dona Ana, abaixe essa arma e vamos conversar com calma. Por favor!

_ Meu caro doutor Joseph Gall, eu só quero que você me examine com sua ciência, apenas isso. Eu preciso saber se meu caráter e personalidade são melhores agora.

_ Ana...

_ Qual foi mesmo meu diagnóstico? Ah, eu me lembro. Sujeito com tendências violentas, homicidas e de baixa capacidade intelectual. Foi isso que o senhor concluiu a partir das protuberâncias ósseas da minha cabeça, não é verdade? Naquele dia, suas conclusões fizeram com que todos acreditassem que eu era o responsável pelo massacre daquelas crianças. O senhor não quis me ouvir, mesmo eu implorando e dizendo que a polícia tinha pego o homem errado. Eles não tinham provas doutor, mas você lhes deu a que precisavam.

_ Ana, eu não estou enten...
_ Eu só tinha dezesseis anos, mas o senhor e sua Frenologia decretaram o fim da minha vida. Desculpe, Luiz, entendo que você não se lembra disso, mas eu não consegui perdoá-lo; desde que me lembrei de tudo, só penso em deixar isso para lá. Mas eu não pude, sinto muito. Algumas memórias é melhor não tê-las...

Nesse instante, Ana puxou o cão da pistola. A intuição de Luiz dizia que ele precisava agir se quisesse ter uma chance de escapar com vida.

Horas depois, o próximo paciente do doutor Luiz Peixoto ligou para a portaria central da universidade dizendo que ninguém atendia a seu chamado no laboratório do Instituto de Neurociências. Ciente de que nem o doutor ou sua paciente haviam saído do campus, o segurança que recebera o médico, avisou ao colega que iria verificar o que estava acontecendo. Quando os policiais chamados pelo segurança invadiram o laboratório, encontraram Luiz Peixoto o morto com um tiro no tórax. Ao lado do corpo, sentada no chão, uma senhora passava as mãos sobre a cabeça ensangüentada por causa do escalpo que lhe fora arrancado. Ao ver os policiais, ela não fez menção de tocar na arma que tinha próxima a si; enquanto era levada dali, ela apenas repetia a mesma frase, a qual nenhum de seus captores era capaz de entender:

_ Vejam, passem a mão. Vocês não acham que eu sou alguém melhor agora?