quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O Próximo passo



Acordo em meu quarto e me assusto ao ver Carolina com a cabeça sobre meu peito!

_ Mas você está…

Ela pós o indicador direito sobre minha boca para que eu me calasse.

_ Amor – disse ela – não se preocupe, nunca vou te abandonar. Só quero que fiquemos juntos.

_ Carol, eu não posso. Ainda não estou pronto para um passo desses.

Então Carolina começou a gargalhar abrindo a boca de forma tão exagerada que a parte de baixo com a mandíbula formava um ângulo de 90o  com a parte do maxilar acima e, em meio a tudo isso, apenas ambas articulações temporomandibulares mantinham juntas as duas metades de sua cabeça. Interrompendo seu riso demoníaco ela disse:

_ Amor, você não vê? Não está pronto agora e nem nunca mais estará para dar qualquer outro passo.

Ela baixou seus olhos para minha perna direita e tocou-a de modo carinhoso e suave como sempre fazia com minhas pernas; segundo Carolina aquelas eram as pernas mais lindas do mundo. Assim que senti seu toque uma dor lancinante invadiu a parte interna dos dedos de meu pé e começou a subir dividindo-se no perônio e na fíbula e voltando a unir-se no fêmur parando no terço superior da coxa. Dos ossos a dor passou a impregnar a carne, queimando-a, e tive a certeza que o tecido seria assado.

Acordei  com o som de meu próprio grito. Carolina, suas palavras, o toque, tudo fora um sonho. Mas não a dor insuportável, esta cruzara o portal entre o inconsciente gerador de sonhos e a realidade da vigília. Eu podia sentir aquele tormento em cada célula do meu membro inferior direito. Em cada célula de uma perna que eu não tinha mais!

E foi dessa forma que terminou a primeira noite na qual passei em casa depois de quatro meses hospitalizado por causa de um sério acidente motociclístico que me deixara aleijado.

Em agonia ligo para o doutor Marcelo, um velho amigo de papai que tornou-se meu médico desde que vim ao mundo e cuja relação era mais intensa que àquela que gozava com meu genitor. Três toques depois ele atende. Sem ver importância naquilo, nada lhe digo sobre o sonho, apenas sobre a dor violentíssima que começara de repente numa perna que não estava lá. Ele pareceu surpreso, mas ao contrário do que eu supus não pela ocorrência da dor num órgão inexistente, mas por tal fato ter ocorrido somente agora.

Conforme ele me explicou, cerca de 50% a 80% dos indivíduos que sofriam amputações apresentavam uma dor de etiologia não muito bem conhecida na parte amputada com se ela ainda ali estivesse e, por isso, a condição era chamada de “dor do membro fantasma”. Os melhores palpites davam conta que a bizarrice surgisse por alterações na função dos sistemas nervoso central e periférico. Contudo, o comum era que a dor surgisse logo após o trauma e, não como no meu caso, meses depois do incidente.

Por fim, ele me disse que me enviaria remédios, na verdade seriam várias categorias deles já que o desconhecimento sobre as causas da dor não tinha permitido até aquele momento que a comunidade médica estabelecesse um protocolo de tratamento; nos apoiaríamos na velha tentativa e erro para aplacar o mal. Por isso mesmo, eu deveria seguir rigorosamente as instruções de como tomar cada tipo de fármaco e, assim que pudesse, ele viria me consultar em casa. Enquanto isso, sugeriu que eu ficasse na banheira com água quente para aliar a dor.

Acredite ou não, passei o dia na banheira e adormeci lá apesar de a água eventualmente ter esfriado eu sequer ter percebido indo direto até a manhã seguinte. Foi quando a campainha do apartamento me acordou. Depois da ridícula cena de pular por todo o lugar com apenas uma toalha presa à cintura, consegui abrir a porta com muita dificuldade e vi uma caixa de um conhecido serviço de entregas expressas junto a meu pé esquerdo; nada de precisar assinar ou mesmo de entregador. Tinha sido enviada por Marcelo, conforme prometido.

Momentos antes de fechar a porta para voltar a minha clausura, a velha senhora que morava no apartamento do lado e não conseguia deslocar-se para onde quer que fosse sem um cilindro de oxigênio e uma máscara, apareceu. Ela passou a alternar suas profundas e sôfregas inspirações com a retirada da máscara durante as expirações a fim de dirigir-me todos os impropérios que conhecia. Na essência, tratava-se de uma reclamação por eu ter feito barulho a noite inteira com meus passos arrastados pelo apartamento. Eu não costumava revidar a ataques como aqueles, vindos de alguém que precisa de atenção e piedade. Contudo, parece que com a perda da perna minha paciência também foi amputada e comecei dizendo que ela estava louca e terminei por xingá-la de modo dão violento que ela rapidamente desapareceu dentro de seu apartamento escuro.

Tornei a voltar minha atenção para caixa e fechei a porta atrás de mim. No mesmo instante que abri o pacote pensei que se a caixa de Pandora tivesse sua antítese esta última estava em minhas mãos naquele momento. Lá dentro, uma diversidade de comprimidos de vários formas e tamanhos: anticonvulsionantes, antidepressivos tricíclicos, inibidores da recaptação de serotonina, anestésicos locais como lidocaína, anti-inflamatórios não esteroides e até mesmo beta-bloqueadores. Como já estava bem acostumado com os garranchos de meu médico, não tive dificuldade em ler o bilhete no qual ele me advertia (mais uma vez!) para que consumisse os remédios conforme ele prescrevera ali. Eram medicamentos perigosos. Podiam causar sedação, confusão, queda de pressão dentre outras dezenas de efeitos colaterais potencialmente danosos. Mas, acima de tudo, eu não deveria beber enquanto tomasse aquelas coisas. Pobre doutor Marcelo, somente alguém que nos tem como filho é capaz de fazer tudo, inclusive perder a objetividade para nos aliviar o sofrimento. Era a única forma de entender como ele teria acreditado que eu iria fazer o que ele me pedia. De qualquer modo, a encomenda não poderia ter chegado num momento mais propício, pois a dor que parecia me dar trégua durante o sono começava a sinalizar sua volta com todo seu vigor.

Tomei diversas pílulas com um pouco de whisky para que tudo descesse melhor. Os medicamentos aliviaram bastante a dor, mas ela ainda estava lá. Por isso, liguei a televisão para, quem sabe, fazer com que eu me esquecesse daquilo que restava da dor original.

Algum tempo depois estava jogado no sofá quando uma voz me chamou a atenção, era Carolina. Ela simplesmente apareceu sentada ao meu lado e trazia o que fora minha perda direita, agora uma massa de tecidos e ossos esmigalhados, sobre seu colo. Provavelmente vendo meu espanto ela disse:

_ Eu a estou guardando para você – referindo-se ao membro. Estamos lhe esperando – ela continuou enquanto abria a mão direita e um minúsculo par de sapatos brancos de bebê apareceu.

Também disse que eu não me preocupasse com a  velha ou qualquer outra pessoa, pois ela e “nossa criança” por nascer não deixariam que ninguém me causasse mal. Nesse momento, olhei para o corredor que dava acesso à porta principal do apartamento e me lembrei que ali mesmo, quatro meses atrás, ela tinha me dito que estava cansada de dormir de vez em quando no meu apartamento. Insistia que precisávamos ficar juntos porque as coisas iriam mudar. Não quis saber o que ela quis dizer com aquilo e peguei meu capacete para ir à faculdade de engenharia. Carolina, disse que poderíamos conversar mais tarde, e que precisava de uma carona. Concordei tendo como intenção secreta não mais procurá-la e proibir, junto aos porteiros, seu acesso ao meu apartamento. Entretanto, uma caminhonete que não deu seta ao mudar de faixa acertou minha Harley Davidson e mudou meus planos: levou Carolina que, por sua vez, parece ter levado consigo tanto minha perna e agora sei, quanto nossa cria sobre a qual eu nada quis saber.

Batidas violentas na porta me fizeram pular no sofá, na teve a programação acusava que passara a noite ali mesmo. Parecia que minha vida agora consistia em não perceber quando dormia e ser acordado pela campainha ou por batidas na porta. Depois do conhecido calvário para atingir a porta eu a abri. Na minha frente um policial civil. Ele me olhou de cima a baixo como se estivesse olhando um troço. Sinalizando com o nariz para frente e para trás indicou-me o coto que era a única evidência que eu já possuíra uma perna ali. O curativo que logo não precisaria mais ser feito posto que o coto estava quase completamente cicatrizado, agora estava encharcado de sangue.

Parecendo menos apressado que quando tinha batido em minha porta ele me perguntou se eu tinha ouvido alguma coisa e onde passara a noite.  Perguntei o motivo da questão e o policial respondeu que minha vizinha do lado, Odete Moura (eu nunca soubera que aquele era o nome da velha!) tinha sido encontrada pela diarista com uma tesoura transpassada no pescoço. Eu disse que nada ouvira por ter passado a noite completamente drogado por diversos analgésicos e antidepressivos (por pudor omiti o whisky). Ele não pareceu chocado e também deve ter imaginado que o homem incompleto que eu era agora não seria capaz de matar ninguém. Ele agradeceu e disse que provavelmente tinha sido suicídio já que a diarista havia lhe confidenciado que dona Odete era paciente terminal de um câncer qualquer e não havia sinais de arrombamento; a infeliz fora enviada pelos médicos para casa apenas para  aguardar o inevitável. “Parece que ela não teve paciência, não é?”  disse o policial querendo-se engraçado.

Antes de se despedir ele olhou por sobre meu ombro para dentro do apartamento. Voltou a me encarar e tive a impressão de que além de me considerar um troço incompleto agora achava que eu também era maluco. Em seguida, virou as costas e se foi. Apoiando-me na porta com grande dificuldade consegui voltar o corpo para dentro do apartamento e, então, entendi a expressão de incredulidade no último olhar do policial: as muitas dezenas de pares de sapato que Carolina tinha e, que guardava num armário embutido no closet de meu quarto, estavam alinhados em fila indiana desde seu local de descanso até a sacada do apartamento! A visão me trouxe a maldita dor do membro fantasma e me obrigou a consumir mais analgésicos, antidepressivos e álcool. Ainda assim resolvi dar um jeito naquilo. Quando acabei de colocar todos os pares de sapato em vários sacos de lixo e deixá-los no corredor, meu joelho esquerdo estava inchado pelas centenas de saltos e a axila direita estava bastante machucada pela pressão e atrito prolongados causados pela muleta.

O telefone tocou. Embora não quisesse, acabei atendendo. Era o doutor Marcelo se desculpando por não poder vir naquela manhã, pois tinha surgido uma operação de emergência. Talvez porquê eu estivesse com a capacidade de julgamento comprometida pelas muitas drogas, acabei mencionando que estava tendo visões com Carolina; sobre a velha vizinha cujo fim minha namorada morta apareceu sugerir de modo ameaçador; sobre meus “apagões” e demais coisas estranhas que estavam acontecendo. Complementei dizendo que já ouvira falar que, durante a carreira, um médico acabava lidando muito com o “inexplicável”. Quis saber o que ele achava daquilo. Marcelo me ouviu calmamente e perguntou:

_ Você está tomando alguma bebida com os remédios que lhe passei?

Neguei obviamente. Então, como hipóteses alternativas ele me disse que eu tinha passado por um grave acidente e perdido a mulher que amava (eu nunca lhe confidenciara o que realmente sentia por ela). Logo, os sonhos e a desconexão com a realidade eram provavelmente resultado disso e, talvez, também dos remédios. Como se não tivesse ouvido nada do que ele falou perguntei:

_ Marcelo, por favor, me diga. A necropsia revelou se Carolina estava grávida?

A segurança com que o doutor costumava explicar todos os eventos verificáveis pareceu sumir. Houve um silêncio prolongado seguido de duas ou três tentativas de formular os pensamentos em forma de frases. Por fim, não sei o motivo (afinal se ele mentisse quem saberia?) acabou admitindo que sim; não me contara antes a pedido de meu pai. Pai este que  - conforme me dizia agora Marcelo – me acompanhara no hospital durante todo o tempo que permaneci em coma, mas que por orgulho preferiu continuar sem falar comigo (coisa que já estávamos fazendo há mais de seis anos), e foi embora assim que dei sinais que recobraria a consciência.

Mencionei que fora Carolina quem me contara sobre o bebê em sonho e ele, com sua eloquência já plenamente reestabelecida, disse que provavelmente eu já tivesse percebido aquilo inconscientemente e o sonho nada mais foi que uma forma dessa parte de minha mente revelar-se. Com essa tirada junguiana disse que precisa ir, mas viria me ver tão logo terminasse a tal cirurgia, viria não importaria as horas.

Naquela terceira noite nenhum remédio ou whisky foi capaz de aliviar minha dor de membro fantasma. Eu tão pouco fui capaz de dormir. Por volta das nove da noite estava deitado em minha cama quando ouvi um barulho muito sutil como o choro de uma criança. Apanhei a muleta, mas ao invés de apoiar-me nela, carreguei-a na mão direita como se fosse um porrete e fui pulando até a sala com meu joelho esquerdo inchado. Embora eu não me lembrasse de ter deixado a porta de vidro que dava acesso à sacada aberta, a mesma estava escancarada. Já no chão da sacada, aquele minúsculo par de sapatos de bebê que eu vira antes, tinha sido cuidadosamente depositado.

“Meu bebe” disse sem me dar conta do despropósito daquilo que acontecia no momento ou do que eu dizia.

Deixe-me cair sentado no chão e os apanhei. Agora eu tremia e chorava, mas não era pela dor, não sei pelo que era. Foi quando um vapor frio atingiu minha nuca. Era como se o vapor de água de alguém falando atrás de mim estivesse me alcançando.

_ Amor, venha, não nos faça esperar – dizia a voz, a voz de minha namorada morta Carolina.

De algum modo eu soube para onde deveria ir a fim de poder encontra-la: para além dos limites da sacada; para um salto do décimo terceiro andar. Sem que eu movesse um músculo a dor tornou-se muito, muito intensa assim como meu choro e minhas lamentações. Pedi-lhe perdão por minha covardia. A covardia que a tinha matado e a nossa criança. A fala de Carolina era doce e não tinha lugar para rancor, ela só dizia que me aguardava e que eu precisava ir a seu encontro.

Nesse instante algo começou a me empurrar em direção ao precipício à minha frente e comecei a tentar segurar-me desesperadamente. Não havia ninguém atrás de mim só a pressão que me empurrava. Ao mesmo tempo a voz de Carolina tinha aumentado tanto que eu parecia sentir sangue sair por meus ouvidos machucados. “Dê o passo! Dê o passo!”, ela ordenava. Minhas longas unhas por cortar quebravam deixando rastros de sangue no chão e, com minha perna esquerda, eu fazia força contra a murada que me separava da queda. Comecei a gritar por socorro.

Eu já havia lido que em situações de perigo extremo as pessoas eram capazes de feitos incríveis como arrancar portas de carros e levantar pesos descomunais. Acho que foi graças a essa reserva de força oculta em alguma parte de mim que consegui me arrastar no sentido oposto daquilo que me puxava e alcancei a porta do apartamento. Quanto girei a maçaneta os gritos de Carolina bem como a misteriosa força de tração desapareceram. Desesperado pulei para o machado de incêndio preso à parede e quebrei o vidro que o separava de mim.

Passaram-se vários minutos e fui me acalmando com o machado sobre o colo. Tomara a decisão de esperar Marcelo ali. Não voltaria a entrar naquele maldito apartamento no qual Carolina passara seus últimos dias comigo. Se fosse preciso, imploraria perdão a meu pai e voltaria a morar com ele. Subitamente, percebi duas mãos me puxando pela perna esquerda em grande velocidade para dentro do apartamento rumo à sacada e, quase não consegui manter o machado comigo.

Não sei por quanto tempo fiquei lutando antes de apagar. Então ouvi a voz conhecida:

_ Ricardo, oh meu Deus! Acorde!

_ Doutor Marcelo? Acho que a retalhei bem, mas não tive ângulo para cortar o osso. Fiz um torniquete para estancar o sangue…Que bom que está aqui! Pode me ajudar a acabar de cortar minha perna esquerda? Por favor? Eu ainda não estou pronto para o próximo passo…


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Morte na eternidade



Irritado pelo pequeno robô que vinha atrás de si enxugando a água da chuva que escorria de sua roupa, Erodes Gigitrio, lançou ao chão um cigarro com dois terço por fumar. “Limpa isso também, estúpido!” Quase no mesmo instante se arrependeu, ficou calculando se os maços que tinha consigo dariam para a noite toda.

Cruzava a descomunal entrada da sede do complexo farmacéutico Rimane; vinha de um prédio vizinho, que por esquecimento de algum arquiteto idiota, não estava conectado ao local no qual acabara de adentrar e por isso estava ensopado. Claro que nunca se importou com chuva alguma, sua vontade de esmurrar o mundo era devida à certeza que se avolumava de ter feito uma péssima aposta ao aceitar aquele caso.

Os três assassinos que acabar de entrevistar – sim entrevistar, como não estava em missão oficial do departamento de polícia, teve de pegar bem mais leve do que fazia nos interrogatórios – não ajudaram em nada. Nenhum dos três se conhecia ou aos seus respectivos alvos. Tinham ocupações distintas e não possuíam ficha criminal e, até o segundo no qual acabaram com suas vítimas, poderiam ser considerados cidadãos-modelo. Antes deles, outros quinze assassinatos foram cometidos e os autores ou foram mortos pela polícia em confrontos ou se suicidavam algum tempo depois de cumprirem seu intento. Uma vez que para as forças da lei os crimes não tinham relação entre si, elas não perceberam a tendência suicida dos criminosos, e quarto sujeitos já tinham se matado. Mas havia um elo entre os diversos assassinatos e o pessoal da Rimane sabia, por isso, seus funcionários tinham conseguido resgatar os três entrevistados antes que tirassem a própria vida. Agora eles permaneciam sempre imobilizados com camisas de força. Infelizmente para o policial, as duas mulheres e o homem que acabar de entrevistar, só disseram coisas sem nexo como  “me deixem ir até ela” ou “preciso encontrá-la”!

A dificuldade em digitar o código na catraca de acesso à parte restrita do edifício o fez interromper seus devaneios. “Mas que droga! Como querem que um cara na minha idade enxergue com tão pouca luz?”, pensou.  Então o investigador intuiu o motivo da iluminação menor que a usual: alguém a poucos metros dali não queria ser visto. Um bando de seguranças também passava pelas dezenas catracas e cercava um sujeito muito mal vestido. Erodes parou. Em trinta anos de atividade policial ele tinha visto milhares de vagabundos, contudo, jamais esquecia um rosto. Só não se lembrava o nome da criatura do esgoto e nem de sua ficha criminal. Precisa descobri o porquê daquele cortejo.

Para ele era a primeira vez algo promissor acontecia desde que fora instalado na Rimane. Excitado, acendeu o primeiro de muitos cigarros que o acompanharam enquanto passava as primeiras horas da noite explorando fotos nos arquivos eletrônicos da polícia. Tudo em vão. Precisa de ajuda e Mônica, por uma razão desconhecida, jamais se ausentava do prédio. Apanhou o telefone:

_  Precisamos conversar.

Minutos depois ela abriu a porta sem bater prostrando-se sob o batente. Há exatos seis meses ela fizera a mesma coisa e graças à capacidade que certos estímulos sensoriais possuem de ativar memórias, o policial foi transportado até aquele dia. Ele se lembra do espanto causado pelos profundos olhos verdes que pareciam ter ação similar à do curare. Devia ter por volta de trinta anos, alta e seus cabelos extremamente negros se opunham à pele alvíssima. Sempre de vestido; ela possuía aquela sabedoria de que nada dá mais asas à imaginação de um homem que aquela peça de vestuário sobre o corpo de uma bela mulher. Ah, e o cheiro? Bem, ele não podia sentir o perfume dela, pois há muito o cigarro lhe cortara o olfato, mas podia jurar que era sublime. Aquele corpo despertava algo fundo nele e, chegou a pensar que se a tivesse conhecido mais jovem talvez conseguisse resolver uma de suas mais graves deficiências…agora estava velho demais. Então a garota apresentou-se e explicou o  motivo daquele primeiro contato.

_ Por que está me contando isso, moça? _ Faltam oito meses para me aposentar e aqui existem policiais bem mais espertos que eu.

_ Você foi altamente recomendado – respondeu Mônica sentada de frente para a mesa de Erodes. _ Na verdade, o que disseram foi “o homem certo”!

A intenção daquelas palavras não podia ser mais explícita. O investigador Erodes era muito admirado por alguns membros do departamento devido à sua capacidade de livrar colegas de enrascadas complexas. Favores dados, favores retribuídos, ele foi conseguindo resolver os crimes dos quais era encarregado. De fato, isso danificou sua reputação com outros policiais, no caso, a maioria deles. Mas o que realmente lhe interessava era que sua a família o visse como um bom policial. Diferente do que se poderia supor, a importância dessa imagem não estava relacionada à vaidade, não. Era algo muito mais particular: ele nunca fora bem sucedido em nada! O que não se devia em absoluto à falta de talento para uma ou outra atividade, mas por ter nascido com uma insatisfação tal que jamais se interessava muito tempo por coisa alguma; sentia que algo lhe faltava. Se permaneceu como policial isso deveu-se em primeiro lugar ao desinteresse e a negociatas. E daí? O fato é que tinha imagem de bom policial para os que lhe interessavam.

Quando Mônica lhe pediu para investigar uma série de assassinatos com a vantagem de saber que todas as vítimas foram submetidas a um tratamento farmacológico contra o câncer na Rimane, ele decidiu apostar, pois aquilo seria o coroamento de sua carreira; para os demais policiais, Erodes tinha sido destacado para um trabalho qualquer. Ela lhe garantiu que ele teria acesso a todos os recursos disponíveis empresa, pois ninguém menos que seu lendário dono, Gregório Idesti, estaria por trás do pedido. O investigador sabia que se aquilo fosse verdade ela era uma das raras pessoas do mundo a já ter visto o homem que nunca aparecia em público. A partir daquele dia ele se transferira para uma sala de arquivos no prédio onde se encontrava neste instante.

_ Então, ainda quer falar comigo? – perguntou a moça resgatando-lhe das lembranças de meio ano.

_ Mônica, por que um criminoso entrou nesse prédio protegido por seguranças? – disparou Erodes.

A garota costumava ter respostas pré-fabricadas, agora, porém, permaneceu sem reação. Tentando prolongar o aturdimento dela o policial acendeu um cigarro o mais lentamente que pôde. Ofereceu um para Mônica que, diferente dessa vez, nunca os recusava. A resposta improvisada foi a de que qualquer pessoa que entrasse na companhia era algo que não lhe dizia respeito.

_ Escute aqui, desgraçada! – Eu não vou estragar minha carreira por causa de suas mentiras! Não venha bancar o paciente que paga fortunas ao médico mas que durante a consulta mente para esconder comportamentos reprováveis. Eu preciso do diagnostico verdadeiro!

Sem responder ela lhe estendeu a mão mostrando querer aquele cigarro. Tragou quase metade dele olhando para o alto e Erodes intuiu que suas palavras ecoavam nela.

_ Preste atenção, se o que lhe disser sair daqui, nós dois…

_ Lembra? Eu sou o homem certo para o trabalho.

Mônica deu uma nova tragada e pareceu mais aliviada por estar prestes a confessar-se com um interlocutor de moral questionável. Ela não tinha alternativa, afinal, também sabia que seu chefe estava para chegar em poucas horas e não ficaria satisfeito quando soubesse dos assassinatos e da incapacidade dela em lidar com eles. Também concluiu que Erodes aparentemente era mais musculoso que esperto e não conseguiria nada sem que ela lhe relatasse informações confidenciais. A moça foi até um arquivo a poucos metros da mesa do policial e abriu uma gaveta.

“Estava aqui o tempo todo” – espantou-se o investigador.

_ Tome, eis aquilo que precisa saber – disse ela entregando-lhe uma pasta.

Ela tinha apanhado um novo cigarro sobre a mesa do policial e um mão trêmula o mantinha à boca. Seu rosto estava ainda mais sem sangue do que de costume.

Depois de dar um primeira examinada nos documentos o policial não se conteve:

_ Você acha que isso é uma piada?

_ Infelizmente não é uma piada e ninguém mais que eu quer encontrar as respostas, pois meu chefe tem tudo para ser o próximo alvo de algum louco assassino.

Ela sentou-se, e pela primeira vez, a intuição do investigador dizia que a garota não escondia algo, ainda que sua revelação se assemelhasse a mais deslavada mentira jamais concebida. De acordo com ela, nenhuma das vítimas fizera tratamento para o câncer. Gregório Idesti tinha criado um procedimento revolucionário de preservação da vida: o armazenamento todas as emoções, habilidades cognitivas, lembranças e demais aspectos da personalidade, enfim, das faculdades mentais definidoras da pessoa, num circuito de computador. Assim, mesmo com a morte da carne, a essência do indivíduo poderia ser reimplantada num novo corpo sendo preservada eternamente. A técnica havia sido inventada no século XXII, isto é, há mais de 200 anos, mas por determinação do próprio inventor, nenhuma consciência preservada deveria ser reativada antes de passados cento e quarenta e quarto anos da morte de seu antigo dono. Por questões logísticas as primeiras pessoas foram ressuscitadas a cerca de dez anos, desde então os assassinatos vinham ocorrendo.

_ Então seu chefe estava entre os primeiros a passar pelo procedimento? – interrompeu Erodes.
Mônica disse ter mentido sobre isso também: antes de morrer, Gregório tinha explicitado uma data precisa para ser ressuscitado, por isso, outros “eternizados” – era assim que Gregório tinha batizado a futura casta de imortais – tiveram suas personalidades despertas antes da dele. Ela, como única parente viva dele, era quem tinha decidido ir atrás de Erodes, alguém com um passado, logo bom candidato a guardar segredo. Era urgente que o caso fosse solucionado, pois a bem da verdade, havia chegado o tempo do fundador da Rimane ser ressuscitado e ela não podia deixar que ele corresse perigo.

A garota encerrou seu relato surreal com um toque macabro: o procedimento só poderia ser realizado em receptáculos vivos. E para isso era preciso “matar” a personalidade do antigo dono de um corpo para que o implante da personalidade preservada pudesse ser feito; presidiários condenados à morte ou à prisão perpétua estavam sendo utilizados. Eram informados de que se participassem de um experimento teriam suas penas revistas, mas acabavam tendo suas existências deletadas.

Então o policial entendeu o que havia acontecido nas catracas, a ficha do homem mal vestido estava ali. Seu nome era Paolo Scorsa. Erodes não o reconheceu imediatamente, pois não tinha sido o responsável direto por sua prisão há cerca de sete anos; o conhecera pela TV. Como tantos outros mafiosos menores ele executava desafetos de sua família na esperança de galgar postos de liderança; infelizmente para o carcamano, sua bela carreira foi interrompida pelo encarceramento.

_ Quero conversar com Paolo Scorsa.

Aquele não era exatamente o pedido que Mônica achava que ouviria. Quase reflexamente ela disse que aquele pedido não seria atendido. O motivo era simples: Paolo Scorsa, àquela hora, já não existia. Ela tinha escolhido o jovem belo e saudável – sua mente doentia não atrapalharia em nada mesmo – para ser ocupado pelo próprio Gregório. Procedimento que devia estar sendo concluído ali mesmo num dos laboratórios do subsolo.

_  Tudo bem. Eu só ia confirmar algo com Paolo, mas posso fazer melhor: posso dizer a seu chefe o que ele precisa saber sobre os assassinatos.

Ela retrucou que Gregório não sabia de nada sobre os assassinatos já que até então estava morto e, que no devido tempo, ele seria informado sobre os crimes, sem alarde. Além do mais, qual o sentido dele conversar com seu chefe se nada fora descoberto! Tudo o que Erodes achava que pudesse saber podia ser dito a ela mesma.

_ Precisa confiar em mim! Lembre-se, Mônica, você não tem alternativa. E eu descobri algo, sim. Um dos três assassinos presos me deu uma informação e posso explicar que motivo levou tantos inocentes a cometerem assassinatos.
Mônica argumentou que aqueles três estavam completamente malucos e não tinham dito nada de útil em dezenas de ocasiões anteriores. Entretanto, por mais que tentasse extrair algo dele, o policial disse que só daria as informações para o próprio Gregório Ideshi, mas que se ela preferisse, eles podiam abandonar a coisa toda.

A garota deixou a sala de arquivos dizendo não ter certeza se aquilo era correto. Quando ficou só, Erodes sorriu maliciosamente pela certeza de que sua mentira teria o efeito desejado. Ele faria o que fosse necessário para resolver o caso, inclusive, tentar extrair algo do sujeito cuja invenção monstruosa estava na origem de toda a confusão.

Cerca de uma hora depois, quando estava quase amanhecendo, Erodes soube que teria sua chance com Gregório Idesti. Mônica subiu com ele até alguns andares acima. Parando pouco antes, indicou-lhe uma porta. Deixou-o. Um rapazola que servia de segurança tomou sua automática e ambos passaram pela porta. No lugar havia diversas dependências e ele foi conduzido até uma sala de reuniões. Antes de sentar-se outro segurança veio em sua direção e dessa vez ele foi revistado. Tendo passado no teste, pediram educadamente para que ele aguardasse a chegada do senhor Idesti.
Em torno da mesa retangular e comprida vários seguranças o encaravam, um em especial, posicionara-se às suas costas. Cerca de oito minutos depois entrou Gregório Idesti e o policial, num raro gesto de cortesia, adiantou-se para ficar de pé ao que o segurança atrás de si tentou impedir-lhe segurando-o pelo ombro. Com um rápido giro Erodes puxou o braço do rapaz para trás imobilizando-o.

_ Tire as mãos de mim, garoto – disse enquanto os colegas do segurança imobilizado partiam para cima dele. Então o recém-chegado exigiu:

_ Deixem-no em paz!

Ao ouvir a voz, o policial sentiu o estômago revirar, sua boca começou a secar e a saliva convertia-se numa massa pastosa. Graças aos olhos envelhecidos e à pouca iluminação, Erodes tinha uma visão prejudicada do novo eternizado. Era sem dúvida o corpo que pertencera ao jovem mafioso, contudo, agora trajava roupas finas e tinha uma postura altiva. Passando direto pela mesa ele foi direto para a porta que dava acesso à sacada e com a cabeça fez um gesto para que um de seus rottweilers a abrisse. Não foi à sacada, porém, ficando diante da porta aberta de costa para os presentes. Sem formalidades ele se dirigiu ao policial:

_ Estive ausente por mais de cento e cinquenta anos e imagino que o mundo esteja muito diferente e haja muito para ver. Aquela bela jovem da qual sou antepassado, Mônica, me convenceu, contudo, que eu precisava ouvi-lo. Algo relacionado ao fato de eternizados terem sido assassinados e que o senhor teria informações capazes de garantir minha segurança. Portanto, seja breve, e use bem o privilégio único que estou lhe concedendo.

A cada palavra o mal estar de Erodes aumentava. Sua boca estava agora completamente seca e uma sede terrível queimava sua garganta. Mesmo assim ele tentava concentrar-se e tentou a sorte dizendo que ambos já tinham se encontrado, pelo menos ele e o antigo dono do corpo. Sem paciência, Gregório Idesti respondeu que não se interessava pelas atividades do antigo dono daquela carcaça; sua existência tinha sido apagada e agora era ele quem estava ali.

Mais e mais nauseado além de sedento, o policial fez ainda duas tentativas de obter alguma informação, mas não funcionou. Entediado, Gregório Idesti suspirou fundo e virou-se para a sala. Olhando diretamente para Erodes:

_  Não temos mais nada para conversar.

No mesmo instante a sede atingiu níveis insuportáveis, tudo parecia desidratado e ele viu, ao encarar o antigo rosto de Paolo Scorza, que Gregório tinha roubando-lhe o último filete de água da Terra. Ele precisa tomá-lo de volta e eliminar a sensação que o consumia. O mal estar tornou-se tão profundo que o policial imaginou-se desmaiando. Ao invés, uma atração inelutável o dominou e quando tomou consciência de seu próximo ato estava agarrado ao chefe da Rimane tentando extrair dele aquilo que lhe pertencia. Na luta, um segurança tentava conter o investigador pelo pescoço enquanto este dominado por uma força descomunal empurrava Idesti em direção à sacada.  Caíram os três. Deslocados pelo segurança da trajetória que os levaria à rua, policial e eternizado aterrissaram numa sacada cinco andares abaixo enquanto o primeiro teve a coluna partida no patamar da mesma sacada e continuou sua descida até espatifar-se cinquenta andares abaixo.

Erodes caiu de costas e conseguia ver o novo corpo de Gregório Idesti retorcido, rosto e tronco de frente para o chão e pernas ao contrário, braços espasmódicos. Então, enquanto o conteúdo da cabeça do eternizado se espalhava lentamente pela sacada, o policial viu-se nascer num outro corpo, chorando séculos atrás pela perda de pais que não eram os que conhecia nessa vida e tendo saudades de um amor que nunca vira. Ele tinha certeza que aquelas lembranças eram da personalidade que fora implantada em Paolo Scorza; sua própria personalidade quando fora batizado como Gregório Idesti, há mais de duzentos anos. Seus olhos foram esfriando e seus últimos traços de calor recolheram-se a seu coração que ensaia os batimentos finais. Lá havia felicidade, pois sua alma, na verdade, a metade com a qual nascera e a metade complementar de Gregório Idesti, preservada há tanto, podiam voltar a ser uma.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

O primeiro pensamento




Há séculos a Ciência foi elevada à condição de instância suprema no julgamento de todas as questões humanas. Como um fruto que amadureceu nesse ambiente, Ronaldo, em sua juventude, foi um fiel depositário dessa ideologia. O reconhecimento que esperava em troca de sua fidelidade foi, contudo, substituído pelo desprezo de seus antigos colegas de universidade. Não importou o quando ele foi capaz de expressar- seguindo todos os fundamentos do método científico; não havia tolerância na Academia para com suas hipóteses sobre viagens no tempo. A demissão seguiu-se ao isolamento e, em sua raiva, ele tomou como meta provar que tinha razão.

Passadas três décadas, reconhecia que suas frustrações com a Ciência o permitiram entender que precisava buscar inspiração em outras fontes. Se por um lado os cientistas estavam certos ao afirmarem que voltar no tempo era impossível já que fatos passados desapareciam para sempre, por outro, erraram de forma miserável ao não considerarem que todo evento deixa “rastros”. Ao investigar documentos indianos milenares tais como Os Vedas e o Scrimad Bhagavatam, Ronaldo descobriu que neles, a estrutura do universo e toda sua física estavam descritas de modo preciso! Havia mais: eles afirmavam que o pensamento era uma forma de energia! As investigações também acabaram por demonstrar que a crença do “pensamento influenciando o mundo físico” era mais séria do que se poderia imaginar: pensamentos consistiam numa forma de energia passível de detecção e mensuração!

Graças a essa descoberta ele construiu um dispositivo capaz de detectar energias de pensamento e voltar até sua fonte, isto é, o passado!  Não conseguiu pensar em nenhum nome melhor que “máquina do tempo” para sua criação. Primeiro ela fora testada com objetos inanimados e finalmente com animais. A prova de que tinham voltado no tempo dava-se a partir da análise do pó ou pólen que ficasse à “cobaia” em questão. Faltava testá-la com seres humanos, o que deveria levar muito tempo para ser seguro, mas infelizmente, os acontecimentos não iriam permitir.

Há muitos anos, cientistas de todo o mundo concordaram que só havia um jeito de evitar a degradação do planeta: eliminar desmatamentos, emissões de carbono, energia nuclear e todas as formas de contaminação da Natureza.  Apesar disso, nos últimos cinquenta anos nunca foram registrados tantos terremotos, furacões, tsunamis, vulcões ativos ou incêndios espontâneos de grandes proporções. Existiam ainda estranhos relatos sobre barulhos ensurdecedores durantes muitas dessas catástrofes. Se para a maioria das pessoas isso não importava, afinal, elas continuavam levando suas vidas e acreditando que, com o tempo, as medidas de preservação fariam com que o planeta se estabilizasse (e seria possível instaurar o paraíso na Terra!). Para Ronaldo o planeta estava morrendo. Não porquê as medidas corretivas tivessem começado tarde demais. Pelo contrário, a Terra ainda não estava tão comprometida quando as mesmas foram implantadas. Sua intuição lhe dissera que havia algo mais! E que nenhum cientista fora capaz de perceber!

Semelhante aos que diante da morte dizem rever sua vida inteira num instante, a crença de que o fim do mundo estava próximo, fez Ronaldo desejar ser capaz de repassar toda a história humana para si quando chegasse a hora. Por isso, mesmo confrontado pela possibilidade de visitar qualquer época, Ronaldo não hesitou decidir-se por usar sua máquina do tempo para detectar as origens do homem, pelo menos do ser humano racional, já que rastrearia o primeiro pensamento. Apostava consigo que as primeiras energias produzidas pelo pensamento e detectadas seriam de por volta de dois milhões e trezentos mil anos, época de surgimento do primeiro ser pertencente ao gênero Homo, o Homo habilis.

Uma coisa importante revelada pelas investigações de Ronaldo foi que qualquer pensamento, sobre eventos do mundo real ou sobre fatos imaginários, geravam energia. Tentar voltar no tempo em busca de uma fantasia qualquer seria desastroso (isso provavelmente explicava o motivo de alguns animais não terem voltado das viagens de teste). Então, como saber que determinada energia de pensamento era sobre um evento histórico? Foi quando percebeu que se queria ter certeza de voltar a um cenário real, devia investigar o quanto objetos antigos tinham sido impregnados com energia de pensamento. Isso significava que algum ser racional esteve perto deles.

Claro que nenhum local reunia mais trastes antigos que um museu. Um arqueólogo que conhecera na época do doutorado era o atual encarregado do museu de História Natural da cidade. Afirmando ter criado uma metodologia de datação mais precisa que o carbono-14 Ronaldo consultou-o sobre a possibilidade de ter acesso aos artefatos de antigos homídios. Aparentemente alheio a qualquer relato sobre os dissabores acadêmicos pregressos e da área de pesquisa do solicitante, o tal conhecido aceitou o pedido com grande entusiasmo.

O museu era o maior do gênero no país, mas para o deleite de Ronaldo toda a parte de pesquisa ficava no subsolo e ele não tinha de modo algum que ficar em contato com a multidão de turistas que lotava o local todos os dias com exceção das terças, dia no qual ficava fechado para manutenção. Por isso, ele decidiu-se por chegar naquele dia. Graças ao entusiasmo de seu conhecido, uma sala foi especialmente montada para que trabalhasse com tranquilidade. Sérgio, esse era o nome do antropólogo do museu, garantiu a Ronaldo que qualquer coisa que ele precisasse, era só pedir. Sérgio dizia só fazer questão de ter acesso às novas datações que supostamente seriam obtidas.

Os dias seguintes foram dedicados ao exame de ferramentas e outros artefatos atribuídos aos Homo habilis, mas na maioria das vezes nenhuma energia de pensamento era detectada. Na tentativa de saber algo mais sobre o aparelho de Ronaldo, Sérgio usava de qualquer pretexto para ir à sala na qual este trabalhava. Numa dessas idas, trouxe uma caixa cheia de estranhas criaturas fossilizadas. Perguntado se aquelas eram novas peças a serem examinadas, o arqueólogo soltou uma estrondosa risada e respondeu que aqueles eram trilobitas, artrópodes que viveram há mais de 490 milhões de anos; portanto, muito antes de qualquer antepassado direto do Homem. Na verdade, completou, eles tinham desaparecido mais ou menos nessa época durante a primeira, de cinco grandes extinções em massa, a do Ordoviciano-Siluriano. Eram mesmo fósseis raros já que a instabilidade das placas tectônicas tinha levado quase tudo do período rumo ao centro do planeta

Ronaldo lembrou-se que estudara sobre que seu colega dizia e que naqueles períodos de extinção, a maioria das espécies vivas morreu. Embora soubesse que certamente não houvesse qualquer criatura pensante na época dos trilobitas, uma curiosidade tão inútil como a que impulsiona meninos a queimarem fios de cabelo em velas, levou-o a perguntar se podia datá-las. Seria bom para verificar os limites do aparelho, afirmou. De boa vontade Sérgio disse que a catalogação das peças podia esperar e deixou a caixa para ir cuidar de seus afazeres.

Enquanto as análises nas peças de dois milhões de anos demoravam alguns minutos, a máquina do tempo indicou uma grande quantidade de energia de pensamento no primeiro fóssil  em apenas alguns segundos! Claro que aquilo só podia estar errado! Ronaldo decidiu repetir a análise e o fez diversas vezes. Então, conferiu a máquina repetidas vezes. Nada estava errado! Indiferente ao que se esperava como “certo”, as novas mensurações confirmando a primeira!

Logo, Ronaldo percebeu que só lhe restava concluir que alguém emitiu pensamentos próximos daquele fóssil, muito antes do que se acreditava homídio estivesse vivo na Terra! Afirmando que ainda precisa avaliar mais algumas peças, ele recebeu a autorização para ficar trabalhando ao longo da madrugada. Tinha tudo o que precisa e esperaria apenas para ter certeza que ninguém mais estaria no museu para partir. Meia hora depois, ligou sua máquina do tempo e um clarão verde foi o último sinal de sua presença no laboratório.

Ronaldo abriu os olhos sobressaltado como quem acorda após cochilar um instante. Sua máquina realmente funcionava (ao menos ele não estava mais no laboratório)! À sua volta havia uma sucessão de enormes trechos de solo irregular cercado por porções de água igualmente grandes. De repente, sentiu algo raspando em suas pernas, mergulhadas até o joelho nas águas, e saltou assustado. Então percebeu que a água estava infestada de pequenos animais: dentre os quais muitos trilobitas iguais aos do fóssil! Caminhou até a terra firme. Ali, gramíneas de várias tipos eram a espécie dominante enquanto em alguns trechos também se viam pequenas plantas similares a espinheiros cujos frutos lembravam bolas de natal laranja. Um forte tremor do solo o fez cair e rolar de costas de volta para a água.

Praguejando enquanto se levantava começou a ouvir gritos humanos do outro lado da porção de terra à sua frente. Sem poder acreditar correu em direção a origem do barulho e, após superar a lama com muito esforço, chegou a uma elevação. De lá, teve a certeza que os autores dos gritos eram serem racionais, mas com certeza não eram humanos.

Um grupo com cerca de vinte ou vinte e cinco seres humanoides de pele dourada e pelo menos uma vez e meia o tamanho de um homem alto corria numa velocidade superior a de qualquer velocista olímpico. Vestiam uma roupa colante que deixava em evidência os corpos bem proporcionais. Alguns, gritavam em desespero embora nada os parecesse perseguir. No instante em que Ronaldo os viu, o grupo parou e seus membros olharam diretamente para onde ele estava! O susto de que pudesse ser atacado não se confirmou, pois da mesma forma que o viram, todos, à exceção do maior dos humanoides dourados, mantiveram sua fuga.

À distância, Ronaldo e o ser ficaram se examinando com igual espanto até que o primeiro sentiu alguém dizendo algo dentro de sua cabeça! Ele soube imediatamente que era o humanoide e, apesar de não saber o significado do que ouvia, teve a sensação de que o outro queria vê-lo longe dali. Um novo tremor, agora mais forte, fez o viajante do tempo lembrar-se que em alguns minutos a programação automática de sua máquina o levaria de volta. Disposto a tudo para conhecer as origens da vida inteligente na Terra, ignorou seu medo e correu o mais rápido que pôde até alcançar o estranho.

Quando estavam próximos, o gigante deu um passo adiante e ao mesmo tempo que o viajante ouviu dentro de sua cabeça a palavra “gondwana”, viu que ela também era proferida pelos lábios daquele ser numa aparente tentativa de reforçar a mensagem. De qualquer modo, Ronaldo continuava não entendendo. Foi então que homem dourado deu mais um passo a frente e com as duas mãos segurou com delicadeza a cabeça do estranho e fechou os olhos. Este último, por mais que tentasse, não conseguiu impedir que o gigante invadisse seu cérebro com ainda mais força do que antes.

Instantes depois, as delicadas, porém, invencíveis mãos soltaram Ronaldo por vontade própria e o gigante disse algo parecido com “vá”. Ter obtido algum vocábulo na cabeça do viajante não permitia que o ser dourado conseguisse dizer bem fonemas do idioma português; disso advinha a dificuldade em se expressar. Irritado pela ineficácia do esforço, o gigante voltou à estratégia inicial e a palavra “vá” ecoou clara na mente de Ronaldo.

Eram tantas as perguntas que não conseguia decidir-se por qual, mas diante da insistência do homem dourado Ronaldo acabou por dizer “por que?”. Como se não tivesse ouvido, o homem dourado continuava a insistir que o recém chegado fosse embora e, além do “vá”, acrescentou a palavra “fome” à suas súplicas. Enquanto permaneciam nesse cabo de guerra, mais seres dourados passaram correndo pelos dois e quando um novo tremor foi sentido, o gigante parou de falar dentro da cabeça de Ronaldo. Olhando ao redor ele andou alguns passos para a direita até uma porção de solo mais arenosos e menos encharcado. Então, com o indicador da mão esquerda, começou a desenhar no chão. Os rabiscos mostravam que alguma coisa que vivia embaixo da terra devorava gigantes e animais.

Por paradoxal que fosse, a profusão de gritos e tremores, pareciam ter anestesiado Ronaldo que não ficou assustado a ponto de sair correndo dali como esperava o gigante. Este ainda tinha seis minutos do tempo previamente programado para permanecer no passado. No mais, ele precisava descobrir como homens avançados tinham surgido num período que se acreditava não ter nenhum tipo de forma de vida complexa e o que acontecera para que nunca tivessem deixado qualquer pista de sua existência.

Indiferente às divagações do viajante e percebendo que este não iria obedecê-lo, o gigante pegou Ronaldo pela mão direita e falou dentro de sua cabeça “vamos”. Era impossível acompanhar o gigante por isso este ergueu Ronaldo como uma boneca de pano e começou a correr tão rápido quando os demais e como se sua carga não existisse. Por fim, Ronaldo foi posto no chão e avistou uma enorme redoma metálica e prateada. Ela era mais alta e maior que as construções que já vira no futuro. Aquele era o local para o qual todos, inclusive eles, estavam se dirigindo.

Quando faltavam quinhentos metros para entrarem, um grande tremor, superior a todos os anteriores, começou a partir o solo por toda a parte, fazendo inclusive, a redoma colapsar. Instantes depois, ela começou afundar no solo, contudo, o mais apavorante era que o tremor vinha acompanhado de um rugido ensurdecedor que parecia oriundo do próprio chão.

As muitas centenas de humanoides dourados que não tinham entrado nela ou escapado de ser engolidos com a redoma corriam agora em total desespero para todos os lados. Mas, pouco a pouco, aquilo que antes eram charcos com água foi cedendo espaço a um líquido que vinha das profundezas da Terra e, ao entrar em contato com alguém, o dissolvia como uma espécie de suco gástrico. Finalmente, depois de feita a digestão, o líquido e seu novo conteúdo nutritivo eram estranhamente drenados pelo solo.

Ronaldo sabia que em poucos minutos tudo seria dissolvido e tragado para as profundezas. O apavorante grito continuava sempre mais forte e, na impossibilidade de manter qualquer diálogo ele segurou no braço de seu companheiro e pensou “por que?”. Desde que todos começaram a ser mortos este último tinha permanecido alheio assistindo o fim. Ao ser tocado seus olhos repletos de lágrimas fitaram o viajante antes com a ternura de um pai que tenta poupar seu filho de um grande sofrimento que por tristeza quanto a sua própria tragédia.

Foi quando do estranho suco digestivo começar a extravasar do solo sob os pés de ambos. Urrando de dor, o gigante apanhou Ronaldo pela segunda vez e encostou sua testa na dele para segundos depois arremessa-lo para cima. Antes que Ronaldo pudesse cair de volta e ser dissolvido como seu amigo já morto, um clarão esverdeado decretou que era de voltar para sua própria época.

Um novo sobressalto e quando abriu os olhos Ronaldo viu-se mais uma vez no laboratório do museu. Sentando-se numa cadeira disse em voz alta para si mesmo que jamais saberia qual fora o primeiro pensamento ou até mesmo a razão para ter sido atraído para aquele instante específico, mas graças à última mensagem telepática do gigante dourado podia sentir-se satisfeito. Afinal, havia acertado sobre o que vinha acontecendo na Terra: havia algo mais! Descobrira que aquela que os homens modernos chamavam de Gaia e acreditavam ser uma mãe amorosa maltratada por seus filhos ingratos já fora conhecida como “Godwana” há milhões de anos por uma raça superior que desapareceu nas entranhas do planeta. Sim, antigos e modernos estavam certos em acreditar que a Terra era um ser vivo, mas só os primeiros descobriram tarde demais que ela era uma mãe monstruosa que, de tempos em tempos, saciava sua fome devorando quase todas suas crias e deixando os sobreviventes para que recomeçassem, evoluíssem, na ilusão de um pretenso amor materno. Um fortíssimo tremor acompanhado de um conhecido grito monstruoso fez o solo do museu abrir-se e Ronaldo sabia o que viria de lá: o sexto grande extermínio em massa.